segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ramalah, parte 5

Por mais sal que fosse extraído dos oceanos, escavado nas montanhas arenosas ou sintetizado em laboratórios; por mais animais sacrificados, escorrendo o sangue dos seus pescoços ensartados em direcção ao centro da Terra. Por mais “Ramalah!” que se gritasse com as bocas abertas e os braços estendidos para cada uma das luas; por mais que se transmutasse a arte, ciência e linguagem em honra aos deuses – nada parecia aplacar a arbitrariedade cruel e fria da Justiça divina. Quem divergia em acto ou em tom de Ramalah era morto, a sua vida terminada das maneiras mais incompreensíveis. As tentativas de rebelião eram tão fúteis quanto – bom, mas que humanos podem arrogar-se da fantasia de matar um Deus? Nos comícios improvisados – na reunião de uma empresa, na festa de um aniversário, num café ou bar – os porta-vozes dos sentimentos envergonhados dos homens eram mortos assim que verbalizavam, a medo ou com irreverência, as suas intenções. Mortos – cada um deles – de maneiras apenas compreensíveis a um ser superior. Num momento, gritando em revolta contra uma das Luas,, no outro os seus corpos contorcendo-se, elevando-se no ar. Contorcendo-se mais e mais à frente de todos, no ar, e desfeitos, revirados por dentro, soltas as entranhas num arco, ou serpenteando como uma bandeira horizontal. Comprimidos numa bola apagando-se no próprio ar, sobrando uma nuvem vermelha no ar com o símbolo sagrado de Ramalah. Ou, não interessa quanto se suplicasse ou gritasse perdão, perdão, os seus corpos simplesmente subiam em direcção às Luas. Quem assistia benzia-se, orava em silêncio e de olhos fechados com os braços apontados a cada uma das luas. E, tremendo, deixavam o cenário do julgamento. Homens podiam ser esticados em cada uma das direcções até ao limite da elasticidade dos seus corpos, ou preservados vivos para os gritos de agonia ficarem marcados nas memórias dos aprisionados. Pois que o Homem estava aprisionado, aprisionado existencialmente, era certo. Era uma certeza que já tinha passado pelo coração de todos.
O medo de errar advinha da ameaça da morte. Mas como errar? Qualquer comportamento indigno a Ramalah seria um erro, uma blasfémia. Cabia a quem sobreviva aprender com os erros de quem entrava em combustão espontânea, ou a quem a pele, subitamente, ganhara a consistência da água e escorrera pelo corpo abaixo, também ele se liquidificando rapidamente demais para tentar um perdão.
Como sobreviver? Vivendo no terror, só através da educação dos sentidos e dos desejos se controla um homem. Revoltar-se era indiferente. A espécie humana percebeu, sem necessidade de qualquer messias de outros deuses, que a luta contra o divino não podia ser ganha. A revolta era indiferente. Ramalah passaram de deuses a demónios, algozes divinos que escravizaram toda a espécie humana. Desejavam sal, sacrifícios de animais, e total obediência. A sociedade, estruturada num modelo com as fundações assentes há mais de três mil anos, respondeu como podia. A produção de arte parou quase por completo, a não ser a sacra. A existente foi mudada, refeita, destruída. Os serviços reduziram-se. A Justiça penal humana terminou. Os juízes, advogados, polícias e militares trocaram as becas, togas, e fardas pelos uniformes de mineiro. Na educação, poucas as universidades de letras e ciências permaneceram abertas com o enfoque na engenharia, química e física, para tudo o que pudesse ajudar a potenciar a extracção de sal e na unificação das línguas faladas numa nova, a ser implementada gradualmente ao longo das décadas que, com um enfoque na entoação, substituísse a linguagem para que apenas a palavra Ramalah fosse suficiente para o Homem se expressar. E assim teve de ser pois, quanto mais os homens se submetiam ao jugo de Ramalah, mais a Justiça divina procurava os pensamentos pecaminosos dos homens que aceitavam, por vezes, deixar as suas mentes correrem como um rio e imaginar um mundo sem Ramalah, livres e podendo gritar o que quisessem.
E as crianças foram ensinadas a não pensar numa existência sem deuses, e as crianças foram ensinadas a não pensar coisas revoltosas. E cresceram as crianças procurando nos olhares dos seus pais e amigos a centelha da revolta que nem em pensamentos se ousava manifestar.
Os centros comerciais foram convertidos em templos. Pouca utilidade tinham para além dos supermercados abertos com os seus bens alimentares. Os livros no mundo iam sendo queimados, um a um, aos milhões por dia, em fornalhas para alimentar as máquinas de extracção de sal, ou as máquinas que permitiam que outras máquinas continuassem a funcionar para o prazer dos deuses das Luas. Para consumirem o seu sal e olharem para os escravos criados para vencerem o cosmos um dia, pensara-se, à sua imagem e semelhança.
Séculos após a vinda de Ramalah, o Homem abandonara há muito a ideia de um destino livre e próspero. A linguagem desaparecera. Tudo era Ramalah, a comunicação era feita através da entoação que cada um usava na palavra. Na escrita, a pontuação ganhara o estatuto de descodificadora dos textos e relatórios de produção, manuais técnicos e livros sagrados, os únicos ainda impressos e lidos, compostos apenas pela palavra “RAMALAH”. Na linguagem, a entoação criava o discurso, o significado diverso. O mundo murmurava, ininterruptamente, a palavra Ramalah. Nome, Verbo, e Atributo. Ramalah. Apenas se falava, se dizia, se clamava, se pensava, e se ouvia Ramalah. Abandonara-se tudo para a salvação da espécie humana. Ramalah, Ramalah. A espécie humana escravizada em corpo, mente e espírito, fora derrotada por Deuses traidores, nada mais do que seres superiores, vindos dos lugares desconhecidos no cosmos que, um dia deixaram as sementes da vida num globo suspenso na vastidão do espaço e, tendo semeado, vinham agora finalmente colhê-los, um a um, até nada restar a não ser o seu próprio nome, dto ininterruptamente enquanto se afogavam em todo o sódio que conseguiam. Ramah e Lah, Ramalah, Ramalah, Ramalah, sempre e para sempre, Ramalah.
E assim se passaram mais de mil anos. O Homem esquecera-se de quem fora, da sua história, do seu destino nas estrelas, da sua linguagem e da sua arte, dos seus feitos científicos e dos seus líderes e heróis, de viver e de pensar.
Até que um dia.
Numa Terra de cidades desertas e em ruínas, fábricas gigantes junto a um mar bravo e vazio de navios, e fauna novamente selvagem.
 Uma mulher, habituada desde nascença a não ter pensamentos para além dos estritamente necessários, habituada a não pensar no que pensava, ouvindo desde a sua nascença apenas uma palavra, trabalhando numa quinta de animais para consumo e sacrifício, olhando para o céu, a sua mente sempre uma tela vazia disse, com uma da mãos estendida de uma certa forma imperceptível e um olhar distante e mordaz, a um outro homem que por ali passava, Ramalah.
E, nesse momento, uma nova semente, passando despercebida aos deuses, fora plantada.
A semente do desejo de os exterminar.


quarta-feira, 12 de junho de 2013




Passear pelo cosmos? Porque não. Na descoberta do cosmos a solidão não está tão presente. Supormos que a vontade é a descoberta, o resto torna-se irrelevante. Tempo (inevitável que o tempo seja relativo), amigos – tudo empalidece perante o infinito.

Não dá para passear pelo cosmos. Azareco. 

sábado, 25 de maio de 2013

Point Replica - Sinopse

     Num Portugal em 2027 renascido da crise após a Guerra Secreta com a Alemanha, é anunciada a primeira feira internacional de videojogos a ocorrer em território português. Daniel, Ricardo e Estêvão, três amigos em caminhos distintos nas suas vidas sem ainda um quarto de século, procuram a oportunidade para competirem no Torneio Mundial de Jogos (TMJ) que se realizará na exposição. Entretanto, um ataque terrorista levada a cabo por uma misteriosa organização de fanáticos de computadores e videojogos, na Feira, leva a que um misterioso super-herói nativo de Lisboa, capaz de saltar prédios inteiros e nunca usa o mesmo fato ou a mesma máscara, nem se identifica por nenhum nome, pede ajuda a um dos três amigos para descobrir quem são esses ultra-nerds e porque é que estão a praticar actos de cyber e convencional terrorismo. Pelo meio, um dos três rapazes acabará a Universidade; terão aventuras amorosas; um outro percorrerá o consumo de todas as drogas que encontrar na vontade de perder a sua mente para voltar, no fim, a encontrá-la; falar-se-à de frame datas, RPG's, o estilo de vida pós-contemporâneo, o estranho acordar de uma nação com cara nova, a esperança cautelosa das massas, o sub-mundo da Internet, drogas, um culto que ora à estátua de um homem com a cabeça de um cavalo, super-heróis com a sua dura vida de combate ao crime e preservação de identidade secreta, e o que fazer para ainda acreditar que a vida pode valer a pena mesmo que não seja mais do que a procura e o entendimento que a mesma é composta por um conjunto de sonhos mais ou menos inúteis, pontuada com o que vai surgindo entretanto. 
     É, também, sobre o fim da adolescência, e o que podemos fazer para nos despedirmos condignamente desse estado da vida.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Smorgasboard




Ele caiu naquela vertigem de cores e promessas e pronto, foi o que bastou. Apaixonou-se logo por qualquer coisa outra vez, mas quando lhe perguntavam pelo que era, porque é que levitava quando sorria, trauteava canções quando caminhava e tinha a curiosidade de uma criança traquinas, bom, ele não sabia dizer. Tentou explicar que as razões são aborrecidas porque nos obrigam a nomear as coisas e a compartimentá-las nas regras do entendimento, que estava assim porque sentia que estava num grande intervalo entre algo que era e algo que iria ser, e o tempo parecia fundir-se, noite do dia anterior e madrugada do novo, até a onda rebolar sobre mesma e estar constantemente a receber uma vaga, constantemente a ser um rio passar, a ser um Tejo unindo duas águas diferentes, pedindo sol ou chuva, adormecendo de tronco nu e calções junto a uma tenda à volta de pinhas e caruma seca dos pinheiros ou falando imenso com os olhos, enroscado num cachecol e casaco com penas junto aos olhos no forro do capuz; indiferente. Estás perdido?, questionavam. Nem por isso. Fui só ali e era para voltar já, já, mas encontrei-me do outro lado e, porque tinha saudades minhas, fiquei por lá.
                Ninguém lhe pedia para regressar. E conversavam com este novo estrangeiro contentes também, elas próprias, por falarem uma nova língua.

quarta-feira, 8 de maio de 2013


Fire walk with me.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ramalah, parte 4


Sim, homens e deuses caminharam a início lado a lado, quando começaram as primeiras purgas. Depois de rescritos os livros, modificadas as canções, peças, filmes e obras para terem a representação do divino, criaram-se quase espontaneamente, por todo o mundo, brigadas de fervorosos fiéis que espalhariam, à força, a palavra Ramalah. Os lares dos suspeitos de não demonstrarem diariamente o seu amor a Ramalah eram visitadas por estes fanáticos, em busca de parafernália religiosa em quantidade aceitável, ou de sinais que confirmassem as acusações de falta de “amor fervoroso”. Ramalah deveria estar embutido nos frisos das paredes, desenhado nas canecas, posto em quadros em todas as divisões, esculpido na madeira das camas, e representado em estátuas no altar obrigatório de cada casa.
Foram anos tolos, de fanatismo religioso e severidade religiosa, anos a que quase se chamaram de século. Os deuses eram cada vez mais presentes na vida terrena, também, com as suas manifestações a brilharem, visíveis, em cada uma das luas, e parecia que quanto mais fossem o centro de todas as acções humanas, mais a sua presença se sentia. E sentia-se, ubiquamente, à maneira divina; incompreensível, aceitava-se, para os homens. E pouco ortodoxa. As execuções instantâneas e sumárias continuavam a ser levadas a cabo. E quando os actos criminosos mais óbvios terminaram, pelo respeito – pelo medo – que se instalava no coração do homem pagão de intenções, rejubilou-se nas ruas pelo fim do assassinato, do roubo, da coacção sexual. Mas só por meros momentos. Pois, com o término da prática desses actos, outros afloravam, já, à superfície do entendimento dos homens receosos, tidos para os deuses como novas afrontas. A burla, a ameaça, e as rixas tinham, por vezes, tristes finais. A cor desses finais era a vermelha, dos ossos e tecidos liquefeitos em borrões de sangue espalhados pela neve fresca, branca; pela areia quente do deserto e sob as bossas dos camelos, na consola de controlos de uma traineira no mar, navegando para os começos de um vento escuro; nos cubículos de escritórios onde os computadores ficavam manchados de sangue negro e seco nas suas pelas de plástico cinzento, realizando-se salgas rituais para purificar todo o andar e o edifício; em escolas onde as crianças se benziam e, com cada um dos braços, apontavam para cada uma das luas, olhos esticados para o céu, a cada morte que presenciavam. E histórias havia dos deuses visitarem eremitas, não os matando com um verbo de poder, mas rasgando-lhes as carnes e cruxificando-os em pilares de ar sólido. Ou conversando sobre horizontes inimagináveis, que os enchiam de terror. Os deuses continuaram a exercer a sua Justiça. E, após décadas de fanatismo religioso sem que nada de bom tivesse daí vindo – a não ser encontrarem-se ainda com vida – os homens começaram a desprezar os deuses.
Os homens questionaram Ramalah.
Os deuses há muitos que tinham passado os limites da compreensão humana para os seus actos caprichosos. A devoção era real e visível – os animais imolados nos altares, as oferendas de vida e de sal, sobretudo de sal, tornavam-se em fumo branco, desmaterializavam-se, desapareciam, iam para as luas. Mas não pareciam ter outro efeito que não o gozo pessoal do divino, e apenas horas, ou dias, de vida, aos seus fiéis seguidores lá em baixo, na terra, presos pelos limites da carne – os homens, que tinham abandonado a independência e a vontade de viajar pelas estrelas. Até os sacerdotes questionavam, nas suas mentes, o porquê de tamanha intolerância divina. E faziam-no com medo, não fossem os deuses escutar os seus pensamentos.
Os sacerdotes– representantes de Ramalah nesta Terra – reuniram-se, durante meses, para debaterem os reais propósitos dos deuses e o porquê destes actos que se assemelhavam a fúria divina. Imolaram animais e jejuaram no templo em forma de símbolo divino, e mais meses ou anos teriam ficado em retiro se uma manifestação de ordem mundial não tivesse, quase espontaneamente, nascido no seio dos homens. Que se assemelhou mais a uma peregrinação. Um dia, o homem cansou-se de questionar a vontade e a moralidade divinas, e decidiu perguntar-lhe: porquê. De toda a parte do mundo, aos milhões, os humanos caminharam até à mesma planície onde, pela primeira vez, os deuses Ramalah tinham descido à Terra. E como da primeira vez, quem não foi até essa vasta planície seguiu, pela televisão, este grito colectivo de compreensão, pedido de perdão, e temor divinos. E raiva, e fúria, por todos os que tinham sido injustificadamente mortos.
Este era o protesto respeitoso de uma espécie que se rebelava agora contra os deuses que escolhera amar. E, num grito a uma só voz, indistintamente ecoada milhões de vezes, os homens perguntaram Porquê, Ramalah, porquê? Acabai com tamanha ignomínia. Porquê as mortes, revoltados, perguntamos? Porquê esta ira divina perante vossos escolhidos filhos?
E durante 3 dias os homens oraram e gritaram, e perguntaram em revolta e pediram a Ramalah por um sinal, e ao terceiro dia, ao final da tarde, as luas brilharam. E todas as câmaras registaram o sinal dos deuses, que seria quiçá uma nova descida, e os deuses desceram, sim, à planície, e os homens rodearam-nos respeitosamente, de joelhos. O olhar posto no chão, a cabeça caída, e a esperança um espigão atravessando-os por todo o corpo.
E nos seus silêncios divinos, rodeados por milhões de homens, os deuses lançaram um círculo de morte que todos matou instantaneamente. E, enquanto as câmaras filmavam cadáveres sem fim, cadáveres contaminando para sempre aquela planície com o sangue dos seus corpos apodrecidos por essa onda de morte, os deuses esfumaram-se, novamente. A partir desse momento, o luar de ambas as luas passou a ter uma distinta aura de malignidade.
Nascera o terror divino. Criadores ou não dos homens, Ramalah não eram deuses.
Ramalah eram capatazes. Vampiros de almas e de força de vida, seres superiores cujo único propósito era o de escravizar toda a humanidade.
E os homens estavam à sua mercê.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ramalah, Parte 3



                Ter em cada uma das Luas que orbitam o nosso planeta os dois deuses a quem sempre oráramos mas a quem, até terem miraculosamente retornado, estávamos prestes a desistir de acreditar, inunda e afoga em eternas ondas de despeito pela nossa perda de fé, agora renovada e mais monolítica do que nunca; e, com ela, a vontade de esconder e esquecer os anos que redundaram em pensamentos e acções de descrença.
                Sim, prosperemos!, era a voz colectiva da humanidade, Sempre em honra e pela eterna glória de Ramah-La e Lah-Ramalah! Que a interjeição ganhe novos e profundos significados, dignos da conotação divina que possui. Que passe a fazer parte das nossas vidas a título permanente, para melhor honrarmos os nossos Deuses que com o seu regresso nos agraciaram.
                As vozes divinas de Ramah E Lah ecoavam, não raras vezes, na mente de todos os homens e mulheres desta Terra. As mensagens eram guias divinos sobre como devia o povo escolhido pelos deuses viver, e o que deviam perseguir no seu objectivo de conquista das estrelas. A colonização planetária dentro do sistema solar que os albergava poderia ser levada a cabo, se assim o quisessem – os Deuses davam o seu beneplácito. Pretendiam apenas que renascesse o culto a eles próprios que os homens e mulheres tinham tão, tão negligenciado. E estes humanos, envergonhados por quase terem esquecido a Dualidade Perfeita, acataram fervorosamente o pedido.
                Uma nova ordem mundial surgiu sob o signo dessa Perfeita Dualidade – a recuperação e construção de templos a Ramah e Lah, e à primeira Unidade, Ramalah, e um novo foco na indústria de extracção de sal, o alimento dado como oferenda aos deuses, nos termos das escrituras. Por agora, a expansão exo-planetária pararia, uma vez que muito trabalho havia a fazer para honrar esta segunda oportunidade, este amor demonstrado pelos deuses. O Sal desvanecia-se nas taças ornamentadas entregues pelos fiéis, e o hábito de comer a comida sem sal depressa se enraizou na população mundial: aquele era produto divino. Também o hábito de criar referências a Ramah e Lah na televisão, nas peças de teatro, canções, estudos e ensaios, livros, óperas, discursos políticos, peças de vestuário, mobiliário, e o design dos aparelhos de construção, dos automóveis e das diferentes aeronaves começou a ter contornos progressivamente mais insectóides. Quando um dos Deuses se materializava, através de um avatar vivo, de compleição física de proporções humanas, na Terra, e reduzia a apenas uma nuvem de vapor cor-de-rosa um criminoso ou blasfemo, ou agraciava alguém com um breve e silencioso toque divino, era hábito ocorrer um ritual de prostração. Terminava apenas o ritual, complexo de silêncios e ajoelhares, os olhos rentes à escuridão do chão, quando cada um dos observadores do acto divino, cada um ao seu ritmo, sentisse o arrebatamento a desvanecer-se do seu corpo. Fervorosas e ininteligíveis rezas poderiam ser, também, proferidas. Enfim, a vida humana virou-se, novamente, para o divino, e que melhor justificação que o divino ser palpável, sensorial, e dolorosamente sentido na alma como verdadeiro para justificar essa nova forma de comungar com o destino de cada um. Tudo mudou. Primeiro, a arte perdeu, em grande parte, a sua irreverência. O que se procurava agora era usá-la como representação do divino. A alegoria era tema recorrente nas exposições, salas de cinema, palcos e escaparates. De forma mais ou menos directa, a expressão “Ramalah” inseria-se em todos os aspectos outrora neutros da vida e de representação.
Mudaram-se os brasões, na pedra e no pano. Os logótipos foram redesenhados, e as cores de Ramah e Lah usadas para representar a pureza, o luxo, a singularidade. Verde e roxo, secos. Vermelho rubro e amarelo-leite. As novas cores da perfeição.
                Da catarse inicial, passou-se para a obsessão com o divino. Obras eram reescritas, em caneta ou computador ou mesa de mistura, para incluírem passagens divinas, ou a expressão Ramalah. “Ramalah” tornou-se uma interjeição, e o substituto de olá, adeus, e amo-te. Os jovens que abraçavam a pastorícia de almas levavam um saco de sala amarrado à frente do peito emulando os laivos da quitina de cada um dos deuses. As prisões eram ocupadas, agora, por novos tipos de criminosos. Os blasfesmos, que não conheciam ainda a ira dos deuses – que convergia sempre na morte imediata, na dissipação no ar dos seus corpos, restando apenas uma pequena poça de sangue onde outrora uma alma caminhara – eram encarcerados, ao passo que os anteriores criminosos foram soltos. A Justiça tornou-se praticamente obsoleta. Uma prece desesperada no momento de uma violação, roubo ou tentativa de assassinato não raro era ouvida, e os agentes de tal acto mortos no local em flagrante delito ou quase flagrante delito. Sem apelo nem agravo.
                Podia o mar enferrujar-se, e seriam dadas graças a Ramalah. Mas a frustração e o descontentamento, a ideia de mudança e a rebeldia de um pensamento livre – tudo isso sempre fora e era, ainda, ínsito aos humanos. Tal era tão certo como terem sido criados por Ramalah. As primeiras vozes de “intelectuais degenerados” e cientistas deixados no obscurecimentos contra o assassinato de homens asseveravam que um julgamento retirado aos homens, e o código moral colectivo extirpado repentinamente, um que criara as fundações onde os homens de hoje, triunfantes sobre si próprios, o seu planeta e suas vidas, não poderia ser correcto. Se o divino é real não implica que os homens não saibam distinguir o certo do errado. Eram espancados, cuspidos em cima, desprezados pelos seus homens irmãos que argumentavam que se o juízo divino não era a interpretação correcta do que deve ser e não ser no Universo, na Realidade, então qual seria a interpretação correcta? E admitindo, apenas academicamente, a blasfémia de não se aceitar a pergunta ora formulada como retórica, poderiam ser eles, apenas mera escória expelida de material e vontade divinas, a possuir a chave para essa correcta interpretação? Meros homens? Qual a estranheza de se aceitar que os castigos que outrora eram vistos como bárbaros, ou retrógrados, ou inumanos, possam ser novamente aceites como certos, desejados, esperados com naturalidade? Mas as mães, e os filhos, e as esposas e os maridos continuavam a chorar. E a ter medo. Da arbitrariedade das decisões. E de serem livres para, também eles, e sem medos, soltarem ao céu as suas vozes de descontentamento.
                Os homens, a início, não gostaram desses blasfemos, e não permitiram que tais ofensivas acções passassem impunes.
                Nem os Deuses.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Trama para um livro inventado


No mundo superior da Meta-Realidade, um antigo Artesão da Desordem é chamado de novo ao activo, de urgência, para pós-observar a morte de um Escritor de Realidades – uma vez que era esse o seu trabalho, enquanto desempenhou as suas funções como Artesão da Desordem. Esta morte, em particular, revela curiosos contornos que fazem apontar para peculiares conclusões imediatas: Não só o Escritor de Realidades ardera, ao invés de se ter desvanecido em luz, como o livro que se encontrava a escrever no momento da sua morte ficara reduzido a cinzas – e os Livros Vivos são indestrutíveis. A dúvida instala-se no Artesão da Desordem: O que poderá ter acontecido? Terá sido o Escritor de Realidades assassinado? E por quem? Terá alguma das personagens escritas conseguido finalmente transcender-se ao ponto de chegar à esfera superior da Realidade, saindo à força do Livro Vivo? E, se tal é o caso, onde se encontra ela? Ou, pelo contrário, e se os Livros Vivos atingiram finalmente a singularidade, começando a escrever-se a sim mesmos, tendo destruído o seu escritor nesse processo de mudança sagrada?
Nesta intriga meta-real onde tudo é mais do que as fronteiras dos seus próprios conceitos o Artesão da Desordem viverá uma emocionante aventura em que terá de descobrir quem conseguiu destruir um Livro Vivo indestrutível e assassinar um Escritor de Realidades e viajará por locais fora do espaço e do tempo como os conhecemos em busca da verdade, enquanto enfrenta incontáveis perigos e percorre as estepes da Realidade Absoluta.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Recensão Wakin On A Pretty Daze



















O novo álbum do Kurt Vile está bom o suficiente para gostar dele. Há aquela vontade meia estúpida de querer ir ao Youtube e pintalgar todo o texto no Facebook ou aqui no blog com a nova banda-sonora de manhãs em casa, a surfar pela internet e a prender com elásticos, na perna, pacotes de gel azul. As canções são grandes e não têm pressa de transmitir o sentimento de unidade. Mas têm alguma pressa, no geral. São a construção das mensagens que o Kurt Vile gosta de deixar em forma de letras, que ainda estou a avaliar.

Meio hipnóticas, com guitarras por todo o lado, e a sua voz de aborrecimento. Não há nenhum single incrível, não há grande fúria como havia no Smoke Ring For my Halo. Não houve aviso entre esse trabalho e os EPs. Acima de tudo, é Kurt Vile sólido, polido como nos habituou a partir do seu trabalho interior. Dá para nos levar com ele, descobrir cada recanto e esconderijo nas suas baladas despretensiosas sobre uma vida cheia de confusão e, para um gajo cada vez mais confuso como eu (spoiler alert I'm a boy ;) ) não posso pedir muito mais para, mais uma vez, me deslumbrar um pouco com um álbum.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Goldtone


O céu inclinado, azul e disperso em branco, é irradiado de um tom dourado nas margens das nuvens e do horizonte. Os tremores da chuva das semanas anteriores pararam como um acontecimento sem olhos humanos para criarem uma memória, a manhã encontra as vagas do mar no embate contra a inclinação do céu e a areia subjugada das praias fosforescentes de dourado, o mar verde e azul revolta-se em brilhos fulgurantes em cada vaga, cintila em código morse as galvanizações de luz, o vento frio leva as partículas de areia em remoinhos límpidos e refractários espalhando a luz solar, o teu cabelo aquece, encaracola-se e permanece negro e farripas brancas cumprimentam o céu e a manhã nas curvas dos seus movimentos erráticos, dançando com o vento, os meus olhos fecham-se, vejo fantasmas iguais aos das vagas, transparentes, quando fecho os olhos, afogamo-nos na água fria e ensurdecedora, no mar ensurdecer branco de espuma, nós agora os chamarizes da luz quando a água escorre pelos nossos corpos e nos torna faróis de Sol na manhã, a pele ao rubro, de tom dourado, e o tom dourado contrasta contra o choque violento e persistente entre o céu azul e o Sol alvo e o mar imenso, de reflexo em encadeamento, de brancura em resplandecência, de tom dourado em tom dourado, eu e tu, no quadro pintado da manhã; o céu, o mar.


Em construção.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

POINT REPLICA

domingo, 20 de janeiro de 2013

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

(...)A porta é de madeira, a janela tem grades de ferro pintadas de branco retorcidas numa imperfeita imitação de três flores-de-lis. A capa não pode ser usada por qualquer personagem, só por classes que usem alma. O efeito que terá no aumento das estatísticas do bardo é marginal – 3.25% de resistência a ataques, uns pontos de defesa a mais. A capa tem ao centro um sol amarelo pintado sobre um fundo branco, e alguns dos raios serpenteantes do Sol têm uma forma diferente, tornando-o numa espécie de cabeça de águia. Que por sua vez é uma espécie de cabeça de grifo. O ar está soporífero(...)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sem Título

"Daniel experimentou o primeiro charro (inalou-o, travou, tossiu - "a porra do filtro pá, está todo aberto") aos dezassete anos nas férias da Páscoa enquanto a ponte sobre o Tejo escurecia num opaco clarão laranja sobre as águas pastosas de um Tejo que o enchia, em Belém, de um vento e de uma chuva miudinha perfeitos, parecia-lhe, para o momento que estava naquele momento a viver. Um crepúsculo húmido persistia, magnanimamente, sobre Lisboa. os pulmões encheram-se de fogo antes dos seus olhos incharem e retraírem, numa fração de milímetros, para dentro do crânio enquanto, lá dentro, nada na verdade se expandia."


sábado, 8 de setembro de 2012

Ainda não, Solidão

Ainda não,
Solidão
Ainda não
Ainda não quero que me deixes cair ao chão
Ainda não
Já não é tempo de procurar a bela, sem senão
Não vai ser fácil dar-te a mão,
Solidão
Não quero sentir o conforto do sempre "não"
Deixa a alma ainda exposta a uma invasão
Ainda não
Veste com outras roupas a indolência, quero mais sofreguidão
Por favor, Solidão
Que a chuva da vida que me molha seja mais do que uma monção
Que seja de mil dias o prazo da tua dilação
Deixa-me errar de novo sem desculpa nem perdão
Ainda não,
Solidão
Ainda não
Preciso de mais sede para a minha transformação
Quero o risco, o incerto, desconhecer a situação
Poder tirar algum carinho das lições deste mundo cão
Caminhar comigo mesmo até aos limites do pontão
E sentir que tranquei a porta ao cansaço e à tentação
Da Solidão
Ainda não,
Solidão
Ainda não
Procura-me só mais tarde para a enunciação
Que será inevitável fechar à vida o coração
Mas hoje não

Que estranha besta és tu.

Swans - The Seer

642 - Your favourite moment in film.




Resumidamente.


O ladrão e a rapariga por ele encontrada, que o tem seguido, até agora, sentam-se numa espécie de escano de madeira, cansados de fugir e, ainda, à procura um do outro. A canção mais bonita que já terei ouvido aflora, entre a lentidão e a solenidade do momento. Suavemente.
O plano passa para a mesa à frente do escano de madeira polida e negra. Numa mesa, um conjunto de chá.  As suas mãos cumprem delicadamente o ritual de servir o chá. O plano muda. Sentados lado a lado, levam as chávenas à boca. Ela com uma seriedade magoada, ele com um leve sorriso.
Pousam as chávenas. Vêm-se os pés de ambos, por debaixo da mesinha de chá. O rapaz hesita entre o que fazer, está confuso. Com a mesma expressão, o pé da rapariga começa a aproximar-se do do dele, até lhe fazer uma festa. Ele olha na sua direcção. Ficam imóveis; ela, olhando um pouco para ele.
Ele aproxima a sua face. Beija-a. Trocam o primeiro beijo apaixonado no filme. A canção acalma-se. (E ainda sentados lado a lado:) Dão as mãos.



Fade out.




Filme: Bin Jip (3 iron – Ferro 3) de Kim ki duk.

terça-feira, 4 de setembro de 2012


Vamos combinar onde nos encontrar. Eu serei o tipo com o cabelo acabado de rapar com uns óculos de sol sem modas vestido confortavelmente, atrás dos caixotes de lixo da estátua da Torre de Eframiel. Tu serás Nostradamus, com um toque de ironia à profecia de não me encontrares de todo junto ao grafitti da girafa mascarada de ninja. Se correr mal, esperamos pelo fogo de artifício e cada um fugirá do outro;, não vou ser o primeiro a sair de casa com a vergonha.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

642 – Coisas que devia deitar fora, mas não consigo



Há uns sacos da minha primeira viagem de Londres; sacos simples, de plástico, que não consigo deitar fora. A máxima, antes do resto: things that you own end up owning you. Tinha catorze anos, ou quinze – quinze – e viajei com os meus pais para Londres. Castanha e cheia de Sol e quente num Verão que deixou a rainha-mãe à beira da morte e os ingleses deitados em parques relvados em cima de toalhas, com vermelhidões pelos corpos pálidos; a loja onde eu mais queria ir era a Forbidden Planet. Nunca tinha estado numa loja só de BD’s e respectiva parafernália de marketing, mas fomos lá duas vezes. Uma? Fui a Londres mais vezes, acho que as memórias estão a mesclar-se. Foi definitivamente depois do nono ano, porque a segunda vez em que voltei lá foi pela escola, no secundário, para fazer o MUN – Model United Nations.
Da primeira vez que fui à forbidden planet escolhi quase todas as revistas do homem-aranha que não tinha, para trás – para aumentar a colecção, porque parte dos anos oitenta foram bastante maus para o homem-aranha – o spawn nº 4 que julgava poder valer alguma coisa no futuro, e estava em bom estado; uma revista inútil da Spider-Girl. Nunca tinha visto tantas revistas juntas. Havia uma estatueta do homem-aranha que me lembro de ter visto, anos antes, na revista Wizard, que agora já não existe. Comprei aquilo tudo com todo o dinheiro que tinha amealhado perante a fúria dos meus pais por ter gasto tanto dinheiro em coisas irrelevantes. A miúda ao balcão de pagamentos era impecável e disse que o meu inglês era muito bom e deu-me as coisas todas nos sacos da Forbidden Planet que são impecáveis, vermelhos e pretos; o resto do saco é branco, num plástico fino e borrachento, daqueles plásticos que não fazem barulho, e as pegas vão-se rasgando como músculos ou tendões a serem puxados do corpo do saco, sem qualquer grito de dor, sem qualquer aviso. Guardei-os: dobrei-os, com cuidado, quando cheguei a Portugal e deixei-os numa gaveta da cómoda onde numa mais mexi neles a não ser para os afastar para guardar outra coisa qualquer e voltar a guardá-los no sítio. Trouxe a cómoda (a escrivaninha) comigo quando me mudei de casa e não posso jurar que os sacos da Forbidden Planet ainda cá estejam. Será que – os deitei fora, finalmente? Não vou confirmar. Achei os sacos bonitos na altura, e permaneceram como uma souvenir. O destino deles, se não o foi já, é só um: irem, um dia destes, para o lixo. Não serão usados nunca.
O mesmo é verdade para: também não consigo largar as caixas dos relógios que me oferecem. Um sentimento de dever perante quem me deu o relógio, é a principal razão. Quem me dá mais medidores de tempo são os meus pais. O meu pai adora relógios e dar-me relógios. Um dia confessei-lhe que o único relógio que gostava de ter, e que usaria toda a vida, era um breitling de pulseira de metal, de mostrador grande e largo, vários círculos com ponteiros, um relógio que envelhecesse. O meu pai olhou para mim e gaguejou naquela maneira de que a ideia entrou porque a achava bonita para o filho e deve já várias vezes ter ponderado gastar mais de cinco mil euros por um relógio. A ideia bonita dele é esta: se algum dia puder, compro-lho. O meu pai é sensato, graças a. As caixas dos relógios são guardadas em mais gavetas de cómodas, num gesto repetido por mim em relação ao gesto original dos meus pais. Nas gavetas do quarto deles, que cheiravam sempre a sabonete, havia sempre caixas com relógios, carteiras por usar; guardadas por baixo, atrás das peças de roupa. Nunca vou usar aquelas caixas, na verdade. São artefactos representativos daquilo que tenho, com livrinhos de instruções que nunca me dei ao trabalho de ler.
E mais? Procuro desfazer-me de tudo que não tenha qualquer relevância futura para mim. Desenvencilhar-me das ameaças de prisão aos objectos. Deixá-los partir, desagregarem-se, porque são coisas sem alma e iguais a qualquer pedra. Há uma marca humana neles, mas se ela não me diz nada, é irrelevante.
Logicamente: guardo, sem excepções, todas as cartas e notas, até os papéis encontrarem na sua forma natural as dobras a meio, ou caóticas, depois de viverem por demasiado tempo no bolso direito, de trás, das minhas calças. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Auto-retrato

Já fui atraído
por memórias falsas.
Já iluminei o espírito
com diáfanas
felicidades
Perdendo-se no ritmo ofegante
do tempo
É o Destino, talvez
singelo, de todas elas


Mastigo devagar as minhas vitórias
é o alimento preferido da lucidez
E sinto pena
Pena perante a certeza do dever
de me manter fiel a este mundo
de luz
e glórias


Serei sempre
Apenas um arquétipo
Um sussurro de como a água
poderia ter sido fresca
e o meu movimento contínuo
Preciso
E vou oscilando
entre o riso e a amargura
da Mentira.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Início dos Novos Deuses - 7; In Absentia

Do Grande Esquecimento
Vieram as memórias
Impressas pela
Luz


Da escuridão
E
Veio a sua feia fiha
Da última a primeira das
Barreiras
Mas o grande pai até a sua filha devorará
Separa-la-à
Até ela virá a roer
Para que não reste
Nuvem ou grito

Só há o Esquecimento
Tudo come no seu negro
Contentamento
Vomitados pela Luz fomos
e só sabemos caminhar
E lembrarmo-nos de todos os sofrimentos
Nem altar
Nem pedra de toque
Invocarás para ousares
seres mais do que calor
Olvida todo o teu amor
Parte em direcção à dor
Foge
Procura a sombra do trono sem
Cores
Nem
Sinos
Até ao limite da ignorância
Do destino.

http://www.youtube.com/watch?v=q23B0vx2g5E

domingo, 19 de agosto de 2012




          Encontrei pela primeira vez esta banda há cerca de três meses atrás, quando me passeava por uma página de tumblr que tem como tema a arqueologia na internet - posta de tudo desde gifs do final dos anos 90, imagens a oferecer sexo virtual na era dos modems de 56k, um bom espaço para encontrar alguma estranheza; era outra, a canção dos blood orange. Tinha, certamente, uma vibe impecável que me levou ao tumblr várias vezes para a ouvir de novo, desconhecendo eu que a canção e o artista são, afinal, very much deste tempo. Hoje, descobri o novo álbum, e é a minha primeira descoberta decente este Verão. Mais vale tarde do que nunca.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012



A japanese tattoo artist works on a yakuza gang member.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Início dos Novos Deuses - A Irracionalidade (3)

Sorveste-me a compostura. Apesar de já ter visto quase todas as imagens. Encontra-me no início de cada dia a proclamar que o meu amor por ti é menos pálido e mais redondo do que qualquer Sol. Que qualquer ano a mais passado. Que o tédio de todas as minhas certezas se suspende. Que existe. Pois que importa o que já foi quando o meu olhar ainda pôde encontrar o teu e questionar de novo a existência de um Sagrado? Pois que me ouça a partícula e o cientista. Aqueles que oram de mim diferentes, agraciados pela centelha da constante dúvida. Agraciados, sim. Pois por ti tenho a coragem para dizer que estava errado. Que Deus existe porque tu existes, e tudo me fizeste questionar, no relembrar de todas estas eras. Que há de novo algo para além da escuridão absoluta, um Fim para lá do Fim. Que de novo sinto medo. Excepto se me tiveres olhado; e o medo também nascer em ti com alegria. Não é possível mais eu saber tudo aquilo que me ensinaram. Por ti esqueço-me. Fujo talvez. E sinto-o de novo, como dantes. Prece. Prece. Rezar. Rezar. Oro a este Deus sem nome como prova final. Faço-o lendo o texto proibido para que o saibas. Renego-me.   Porque agora sei a verdade. Somos irracionais. Somos imperfeitos. Porque tudo o que agora quero é viajar contigo até ao limite das estrelas. Desde que estejamos sempre unidos.


[transposto para prosa. A versão original era um poema, mas foi no final mudado]



Acabei de ver Parks and Recreation, a melhor série de comédia actualmente. Não faço ideia o que virá a seguir que me conseguirá prender a atenção.

Talvez algo onde a Rashida Jones apareça nua, e gira, e nua.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Início dos Novos Deuses - A Fuga (2)

E Tynamat
Fugira!
De sala em
Sala pelos portões duplos
da Casa dos Grandes Ursos
E saltou,
Saltou para a Grande Noite
Saltou, fugiu
para o reino dos barulhos
Na Terra aterrou
E Tynamat
Magoara-se
E chorou e suou na hora dos moribundos
E arrancou e esmifrou cada osso
Do seu corpo
E cada brinco atirou
Lançou e fizeram-se
As montanhas
Os rios com os seus cabelos negros
Os homens, salgados das suas lágrimas
As árvores dos seus pelos
As grutas das suas fendas, do seu corpo caído
Fora da Casa dos Grandes Ursos
Tynamat caiu e não volta
Chocalha ainda por debaixo dos vulcões
Treme e abre a Terra em duas
Chorará e gritará
Até os Domadores de Ursos
Chegaram e falarem
Falarem e gesticularem
Dourados e escuros caminhando
Andando até a encontrarem
Foragida
Tynamat.

Tynamat, os filhos das tuas lágrimas 
Só podem existir
Para te proteger e deixar

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Início dos Novos Deuses - A Mão (1)

              A Mão
              Precede o seu próprio gesto
de criação por si
criada Por esse gesto nasce 
a força e os Fogos. Os fogos das
Cinzas arrefecem
em turbilhão
, gera-se o Homem, quão
belo é o gesto 
Formado pela lama
da criação.


Todo o teu ser é a graça desse
gesto e também
as tuas mãos esculpem 
Outras cinzas´
              O Fogo nas acções e reacções
O reflexo.
Novas mãos criam 
novos fogos gerando
Novos gestos dessas mãos
filhas

Para sempre a graça da Primeira Mão
do gesto eterno
Contínua,
              Continua


[Em palavras espalhadas noutra cor/padrão do poema original: "Podemos ver os ecos da primordialidade da Grande Mão no fumo invocado pelo fogo, a criação verdadeira da Mão               os Fogos" - aqui, no final]


http://www.youtube.com/watch?v=vp1A_QygocY


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Início dos Novos Deuses - Introdução


            Como os meus leitores sabem, tenho colaborado ao longo da minha carreira com várias bandas – pequenos projectos, desde procurar e encontrar bons nomes para álbuns, a definir o feel geral do artwork de um álbum, até algum polimento de letras, pequenos trabalhos de produção, etc. A minha colaboração com artistas musicais começou com um projecto pro bono para o meu amigo Mário Sanchez, mais conhecido como Jazz Sanchez, saxofonista tenor do quarteto Gills que passou, precisamente, pelo nomear da banda e ideia para a capa (uma caixa de produto de restauração capilar, em close-up, deitada, jorrando um líquido transparente e espesso do seu interior para uma mesa com uma toalha vermelha, cheia de borboto, vendo-se no canto inferior esquerdo o início da mancha de produto desperdiçado que, misturado com o pano da toalha, fazia nascer um tom de vermelho mais escuro; a caixa era de formato cilíndrico, maior do que uma mão, pintada em prateado, espelhada, com letras fluorescentes indescortináveis). O meu nome foi-se criando com colaborações com os Sacrossanto (trio death-metal de Palmela), Fuishi Crows, Lamela, The Panopticon, João Berhan ou Dave Mattew’s Band, só para citar uns quantos.

            Foi por isso com ligeira, mas agradável, surpresa, que recebi o convite dos The Mars Volta para ajudar a criar, juntamente com o seu mais novo registo – o álbum Noctourniquet, editado pela Warner Brothers, este ano – um “universo expandido” que deveria sair, mais para o final deste ano, com um dvd da banda com as mais icónicas canções do seu repertório captadas ao vivo – com destruições sonoras e visuais – ao longo da carreira de quase uma década da banda. A ideia seria fornecer novos instintos sobre como ouvir e perceber o álbum, decifrar – através de pistas, com um programa interactivo (the corrupted rosetta), através de pistas espalhadas pelo dvd – as letras escondidas entre cada canção que compõem o alfabeto escondido, semeado por Cedric Bixler-Zavala, a que deu o nome de “cerpin textum”. Ademais, e porquanto o novo álbum agora editado pela banda não obedece a um exercício conceptual, pediram-me para eu o conceptualizar através de um exercício destacado de cada canção com uma história, ou temática, comum, extraindo o sentimento geral de cada uma, abstraindo-me – afastando-me se possível – o mais possível das letras. O álbum teria ainda legendagem em espanhol e – ofereci-me eu para realizar esse trabalho através dos meus contactos no mundo português da tradução – português, mas também sânscrito, urdu e cerpin textum (esta última língua seria cantada por Cedric e, depois, invertida, para que pudesse apenas ser descodificada nos velhinhos leitores de cassete de antigamente, obrigando os mais fiéis fãs a passarem o áudio do dvd para esse obsoleto, e cheio de charme, formato). A mensagem seria, em princípio, passada durante os períodos de experimentação da banda nas canções tocadas ao vivo, extraída dos textos que eu criasse para inserir no dvd, desbloqueados em pdf apenas após se inserir o código na parte interior do dvd, cuja cobertura, de plástico, deveria ser opaca, mais propriamente de um azul-petróleo algo incomum. Ficou ainda no ar, através das conversações que tive com a banda, a possibilidade de eu fazer a capa e verso do dvd, embora necessitasse sempre do beneplácito do Omar (Rodriguez-Lopez) para levar as minhas ideias e visões avante.

            Saltei para o projecto com toda a vontade de o executar e agarrei-o com unhas e dentes, mas o mesmo desmoronou-se quase antes de começar. A editora (Warner Brothers Universal) pretendia lançar o primeiro dvd dosThe Mars Volta na altura do Natal, ou seja, em inícios de Novembro, o que coincidia com o retiro anual zen do Cedric nas tribos africanas Swahillis, e com o lançamento do décimo-quarto álbum de originais do Omar (razão esta que, por si só, não seria grande problema, não fosse o álbum – cujo nome me encontro proibido de revelar – consistir de quarenta duas canções e vir em 3 cds, intitulado cada um “manhã”, “tarde” e “La eterna noche”, cada um com um estilo musical distinto, mas todos explorando o tema da revolução cultural maoísta e o subsequente caos que originou na China, com a destruição praticamente total de toda a sua história). Houve conversas acesas por vídeo-conferência entre mim e os membros da banda, os Volta e a WB, e eu próprio com a editora, que se recusava a ceder às pretensões da banda em editar o dvd em Março de 2013 (dois meses antes do novo álbum dos The Mars Volta, a sair – you heard it here first, folks), conversas onde por várias vezes se perderam as estribeiras e fui acusado de ser “um judeu usurpador de pensamentos e sonhos” (eu nem sequer sou judeu) e “um ditador cruel que só se importava com o seu próprio trabalho” ou “o irmão bastardo do gajo do Napster”. Embora não tenha sido o mais maltratado pelas críticas – fala-se que os The Mars Volta estão a pensar em sair da WB e assinar pela (defunta?) Gold Standard Laboratories e que o teclista foi acusado de ser “um filho da puta cabeludo sem talento que só está aqui para preencher a quota de brancos na maior banda do mundo” – o projecto, por clara impossibilidade em deixar satisfeitas todas as partes, foi interrompido.

            O que restou do projecto foi o meu contributo para a distorção em cerpin texto e formato pdf do aumento do universo Noctourniquet. Para o projecto, escolhi o tema de, por canção, criar um poema, onde o tema comum – como me foi pedido que arranjasse, um tema comum – é o da história da criação de uma religião distinta.
            Uma vez que o projecto foi completamente pelo cano abaixo, deixar-vos-ei, todos os dias pares deste mês, um poema da série “O Início dos Novos Deuses” esperando que possa, um dia, ainda ser chamado para colaborar com a minha banda favorita.
            A não ser que eles voltem a fazer algo do género do Ochtaedron. Se for esse o caso, então que se fodam.

Enjoy.

domingo, 5 de agosto de 2012





Hoje houve Gil Scott-Heron no Outjazz. Para a próxima, levo um livro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Estado das Coisas



Diz que amanhã volto a escrever.

Turn it up, e todas essas coisas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012







"its finally time for us to meet. i’ll be the guy in the bar with the sick dragon/sword necklace I won at the arcade for 160 tickets. it was pretty tough I had to play a lot of games."

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Terranzona


Quando alguém é bom tem a capacidade de se tornar santo – realizar milagres. Transcender-se em vida. Tocar a luz inicial e ver para além das regras da física. Estas pessoas são santas. E morrem como todas as outras.
Ora, quando alguém percorre o caminho da santidade e consegue chegar ao seu destino final, está completamente transformado. Mas não são imunes à sua própria deterioração das carnes que a compõem. Por norma – sempre, na verdade; é um requisito essencial para percorrer esse mesmo caminho – são abnegadas. Daí não procurarem a permanência da vida para além do que a natureza os agracie. São amados por quase todas as pessoas. Velhas, deixam que o seu corpo e espírito sejam entregues à grande questão.
Quando um destes santos se recusa a morrer – porque o seu corpo simplesmente não os deixa – a situação (peculiar, rara e de extrema importância) é apresentada ao Santo Padre para que sobre ela se pronuncie, na ponderação da Terranzona. Raras vezes não é concedida; para que o pedido de Terranzona seja pedido, é preciso primeiro que alguém tenha atingido a santidade em vida; que seja conhecida, essa santidade, por uma vasta franja de fiéis.
Os padres escolhidos para cumprirem o ritual são escolhidos a dedo pelo Santo Padre (não há necessidade de qualquer confirmação de veracidade uma vez que só os cardeais lhe podem apresentar o pedido de Terranzona). Poucos padres treinam e estudam o Ritual, e menos ainda são escolhidos para o ritual. Por norma, passam as suas vidas inteiras sem o realizar.
O padre terá de ir ter com o santo moribundo, preso à Terra sem poder ir ter com o seu Senhor. Preso ao mundo imperfeito do qual já não faz, entende-se, parte. O padre tem de sentir a santidade do santo. Tem de rezar a reza ouvida apenas pelo santo. A extrema-unção não é necessária, tampouco a confissão. É retirada a navalha cerimonial das vestes negras do padre após a reza. Deve ser enterrada bem, e profundamente, no peito do santo, que assim poderá finalmente, com a ajuda do seu irmão confidente de Deus, ascender livremente.
E é este o ritual chamado de Terranzona.

terça-feira, 1 de maio de 2012

No Hospital

Há uma diferença fundamental que, ainda assim, compreende a existência total da nossa estadia forçada num hospital a ela indissociável, na verdade, que se traduz no binómio dia/noite,; essa diferença fundamental. As lâmpadas, a tremerem também elas doentes, umas num soluço permanente antes do eléctrico final que as faz permanecer ligadas, com o halogéneo a vibrar dentro dos cilindros de plástico vitrificado, são apenas uma das coisas que se nota nesse binómio, mas_______, com problemas crónicos em adormecer sem se virar/revirar, mexer os membros como entidades mais despertas naquele específico período temporal – a noite. A noite não passa, só avança. Dizia, chegou-se ao desespero. Uma apendicite é rápida: faz-se uma pequena incisão na parte inferior direita do abdómen e, geralmente, chama-se o estagiário para girar, cortar e coser o pedaço de carne inchada e fervilhante de inflamação que faz uma curva de dor nas entranhas. Mas um acidente de moto com fractura exposta da perna e perfuração do pâncreas, sem sequer entrarmos, para os leigos, nas ramificações clínicas que daí advêm, é uma história completamente diferente. Ao tempo do acidente – que ocorreu pelas onze e quarenta e cinco da manhã, seguindo no lugar do pendura em que quem conduzia a moto, com a pintura vermelha e preta a evidenciar essas mesmas características, era o seu primo _______, duas dioptrias em cada olho embora, na verdade, o culpado fosse, admita-se, não a sua miopia que nem sequer é, à idade de 27 anos, galopante, mas sim o seu desrespeito pela distância de segurança em relação ao carro da frente e má leitura das intencionalidades e estilo de condução do quando confrontado, subitamente, com um sinal amarelo é rápido demais e os corpos voam cada um para seu lado, o de Joel aloja-se inanimado entre o capot e o pára-brisas – Miguel ainda não conhece as teorias dos gritos, da dor – e do poder que têm de transformação, já lá vamos – e das relações ocularmente insultuosas de cada parede em estuque leproso ou pintura plástica suada de cores de irrepreensível ambiguidade – branco?, não branco?, sempre –, janelas de madeira seca, asfixiada pelo ar impregnado de iodo e amoníaco, vidros a reflectirem a luz em tons errados, laranjas e prateados, culpa da película residente de sebo e gordura em cada quadrado de vidro, as lâmpadas de que já se falou, doentes silenciosos a olharem com as dores, e os ferros, e os gessos e os tubos de plástico a saírem dos seus corpos para as paredes, felicidades cinzentas quando é hora das visitas, as escondidas salas de recobro e os frios e metálicos blocos operatórios que, afastados, providenciam a casa de doentes com frescas e novas aquisições de dor, desespero crónico pela pausa forçada numa vivência Lá Fora; sobretudo novas formas de ver e sentir o tempo; enquanto se pensa que a noção de eternidade é muito mais insuportável quando um mero bafo desse mesmo conceito nos é imposto, e nós imóveis, em conversas com a dor, a dor interna das carnes remexidos por facas e pregos, parafusos; a imobilidade, sem querer presumir que teremos que o aceitar – estamos doentes, fracos, demasiado doentes e fracos e, sobretudo, inválidos – e paciência. E dor ainda. E desespero nas quantidades certas. O Inem demorou pouco mais de treze minutos a chegar ao local. Desconhece-se quem fez a chamada. O dia no hospital tem o tempo congelado, parado nos pormenores inúteis da imobilidade e do silêncio imposto pela própria natureza do lugar. A noite apenas desafia a sanidade e transforma quem é enlouquecido pela dor e pela insónia numa criatura de pensamentos brancos, onde, um dia, a dor transmuta-se em raiva pura – Mas, isto,_____ ainda não sabe. Acabou de entrar em choque e não voltou a ver o primo. A perna é um estremecimento alienígena, pretendendo logo autodevorar-se. A barriga limita-se a implodir. O som das sirenes vibra, desfocado, pelo ar. A agonia cai como uma gigantesca gota de mel sobre o local do acidente. O carro fumega. Em laivos. Todas as cores e cheiros e sons tornam-se, em ondas, ou mais intensos, ou mais desfocados. As sirenes da ambulância, enquanto os médicos com luvas brancas se aproximam de ____, repara, tocam, girando, ininterruptamente. O fim da dor não vem com elas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Turn it up.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Miguelti – Tigre Azul

(agora Depois da Mina)

domingo, 8 de janeiro de 2012



Comentadores de Marvel Vs. Capcom 3.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012



Benvindos a 2012.

domingo, 4 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011



"Um post por dia todos os dias de Dezembro era até uma boa ideia", pensou ele.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 5

Para onde foi o Sol

Para onde

Perdendo-se nas pregas das nuvens

Ostracizado pelas chuvas. Neves e dilúvios

Pescou-se a estrela sem anzol

Num crânio repousou, forjou canções de calor,

Antes

De um largar de luz se impor, brilhou

Um Sol, o Sol

O meu Sol

Cantava a canção, sem rimar.

Nas ruas arejadas da cidade e nos becos mais escuros vergados ao lixo e à humidade preta entre o chão e as paredes, nas igrejas brancas a reflectirem a luz do céu nos fiéis que a abandonam, nas casas de telhados laranja e castanhos e prateados de alumínio, vistas do castelo de pedra lá no alto com vista para o rio, nos edifícios de vidro e metal obsidiano curvados sobre os chão horizontal, nos arranha-céus a tombarem lá de cima a semearem-se no centro histórico da cidade, em todos os lugares o Sol e este novo Sol abarcavam e devoravam tudo o que encontravam. Uma luz mais parda e menos brilhante no velho Sol, no maior e no primeiro, talvez? Decerto que sim, as pessoas olhavam para cima e desejavam que as nuvens saíssem da frente para os fulgurarem mais do que nunca. Que confusão e entusiasmo, esta nova estrela bem mais pequena que a original mas bem mais forte, de repente. Uma coisa que inchou durante dias enquanto ascendia, devagar e gorda, até ao negro do espaço. As pessoas nem podiam acreditar e é claro que apareceu nos jornais e telejornais locais e internacionais. A estrela brilhava só por aquela cidade naquele canto do pequeno país, e em breve foi deixada em paz pelo resto do mundo uma vez que ela não ia a lugar nenhum, mas mudou a vida dos habitantes. Chekirout. No CAPI, o novo Sol foi presenciado e visto por todos a subir aos céus na noite, como se de um invulgar espectáculo de pirotecnia se tratasse, neutro de cheiros – este único redondo e grande brilhante foguete não fazia com que a pólvora se misturasse com a terra quente do Verão. O chão ainda estava molhado, no logradouro do CAPI. Mas a chuva parara misteriosamente. Talvez fosse, creia um céptico, o calor da estrela que evaporava as nuvens acima e – de roda agora – de si. Mas a resposta mais bela e verdadeira seria a de que o céu mergulhado na sua amante noite não se vergasse mais ao seu domínio e deixasse este pedaço de luz e claridade solares ter um parto o mais encorajador possível para tomar mais um pouco do seu novo lugar em si. No céu. Os ímpares aplaudiam e assobiavam e Jocivalter, num sorriso largo por todo o comprimento da sua cara molhada largara a postura de sarcasmo para poder ver, com os seus olhos pela primeira vez, o que já antes tinha visto.

Fizeram-se e cantaram-se imensas novas rimas e poemas, canções

Foi num dia de Novembro que o Sol de novo floriu

Abriu as novas asas pousado na luz que nunca viu

Dançou no mar, pescou novas nuvens ‘pra se enfeitar

É o novo Sol, sem nome Sol, sem nenhum nome

Para dar ou tirar

É… Vamos só sorrir para mais brancura

Reflectir nos dentes o esplendor de um novo mundo

Colado ao céu e com um véu

Destapa a luz no horizonte e diz Este novo pôr-do-sol sou eu

Com a Primavera a vir o Sol vai querer dançar e despontar

Novos romances com a Lua e quem quiser mais acompanhar

Dormirá com ela atrás dos seus cortinados despedaçados

Por meteoros e pedaços de estrelas mortas

Um pouco mais azarados

Este Sol

Este novo Sol nem nome ou assinatura

Beijando-nos o rosto

Queimando-nos o corpo

Em plumas e conversas cruas

De calor

Tornaram-se parte do imaginário colectivo da cidade: os novos raios de luz de cada canção nova aflorada da união entre as fundações de pedra e a nova estrela; que, por vezes, dançava no céu.

Era mais fácil ás pessoas apaixonarem-se. Tudo era mais intenso mas igualmente racional. Os concidadãos apaixonavam-se de forma renovada pelos seus trabalhos e assobiavam quando saíam de casa e cumprimentavam os vizinhos com sorrisos abertos, ou enamoravam-se pela ideia de mudança nas suas vidas. Tudo estava bem para quem estava feliz, e quem estava triste olhava para a nova estrela no céu; e, por momentos, talvez percebessem qualquer coisa mais. Mais qualquer coisa – para continuarem a questionar a cada passo as mesmas coisas de sempre.

Ver as ondas do mar a revolverem-se no mar em espuma e gotas de sal espirradas para o ar ganhava uma nova dimensão contemplativa. Ver os raios de Sol a intrometerem-se pelas frestas da ponte grande, de metal, que juntava pelo rio uma cidade à outra, e pelas frinchas das persianas em cada casa. Ver um nascer ou pôr-do-Sol, então, tornara-se toda uma nova experiência. Pequenas sebentas cedo começaram na rua a ser vendidas com os melhores locais para se ver o sol a pôr-se ou a nascer. A qualidade de cada sítio era, até, apaixonadamente discutida pelos adolescentes a saltarem de bairro em bairro até aos velhos nos cafés de bigodes com pontas amarelas e os cotovelos em cima de jornais húmidos. Arranjar um sítio deserto onde se pudesse ver, de este a oeste, os Sóis a encontrarem-se tornou-se numa comodidade com o preço superior ao ouro. No nascer do Sol a noite, antes da despedida final, concede-se a um púrpura no colo do horizonte a arrastar-se em borbotões pelo escuro do azul do céu, e as estrelas brancas dissolviam-se, já, nesse mesmo céu. O púrpura no céu arrastava-se então ainda mais na direcção de cada pessoa e o colo do horizonte transmutava-se para um ocre carregado. Era a chegada do velho Sol, grande, no seu caminho habitual. Mas pouco depois logo vinha o novo Sol. E este novo sol raiava da direita e nascia por ali mais saltitante que o velho Sol; ser-se mais novo e mais pequeno tem destas coisas mas e o céu, o céu com o novo céu ganhava um raio oblíquo oeste-este em tons esverdeados, por vezes, ou de um azul mais claro e esse raio quando era azul misturava-se com o ocre do antigo Sol e um verde fresco e limpo pulsava, em vez de pingar, em curvas largas, por toda a tela celeste. O Sol preenchia o fim enquanto subia e as cores desvaneciam-se apenas para um rosa de despedida e a Lua, a assomar, tímida, num longínquo céu azul. E o Sol novo nascia todo e, depois de subir, voltava a fazer uma curva descendente e um novo folgo de luz impregnava as nuvens de rosa, rosa, rosa, e se chovesse, havia sempre um arco-íris; e esses arco-íris dividiam-se e subdividiam-se com os soluços dos ventos, a passearem-se pelos dias. E o dia nascia finalmente e quem via o nascer dos sóis era congratulado pelos amigos e família. E o coração de cada um desses felizardos ficava sempre mais leve, ou mais doce. A cidade cintilava com o novo astro que escolhera ficar com ela para sempre.

Du-as

Estre-las

Umagrand’outra

Pe-quee-na

Dançaa-ram para o maaaaar(hum!)

Fize-raaaam

O pescador voltar, voltar

Voltar

Para os braços da mulher gorda que o esmaga a abraçar!

So-le

Soli-nho

Faz-melá-aaá! Um arranjiiii-nho…

Para ele ir ver o nascer do sol comii-go!

So-le

Soli-nho…

[…]

O pôr-dos-sóis tornara-se um evento social, como ir ao cinema ou deixar pingar as horas para o chão em esplanadas com os amigos. As pessoas saíam dos trabalhos antes da noite se produzir e corriam atrás da luz que falecia como uma anã branca. O amarelo tornava-se mais laranja no céu e o novo sol pintava as nuvens e pedaços mais inferiores e longínquos de céu com o sangue da sua despedida. A escuridão rodeava o céu num círculo lento e contínuo e o Sol mais novo despedia-se primeiro, a Lua já alta. Fios de clarões laranjas percorriam verticalmente o pano escuro das estrelas, e as que se encontravam no caminho desses clarões. Desses fios laranja, desses clarões. Desses clarões. As estrelas não apareciam e esses clarões, esses fios laranja, esses clarões esses fios esses clarões. Esses fios esses fios fios fios laranja esses clarões. Esses fios. Esses clarões esses fios esses clarões esses clarões esses fios laranja esses clarões esses fios esses, fios esses clarões esses fios, esses clarões. A noite cai e todos vêm esses clarões e esses fios laranjas – esses clarões laranjas, esses fios verticais laranja – em último lugar antes das estrelas se incharem de branco e a noite, azul, mais ou menos escura, com o amarelo doce e pegajoso dos candeeiros por todas as ruas se instalar, por aí, etc. Uma cidade com dois sóis durante o dia e no jardim interior do CAPI vemos particularmente bem ambas as danças dos sóis

E assim a nossa vida no céu transpareceu

Eu o Sol e tu a Lua, um filho e mais um Sol

Nosso, meu e tu,

Dançámos na rua e vimos o céu ficar em chamas

Ouvimos o cantar do mar e os pescadores com as suas canas

E na orla das ondas com as suas espumas serenas

Brilhava o reflexo dos sóis e de ti, minha Lua,

Princesa da noite que com os dois sóis nunca

Será deixada à sua sorte

Eu e tu e mais um

Um sol a lua e mais um

Um Sol

O que, visto que o CAPI tem sempre as suas portas abertas para quem queira entrar para apenas passear, passar pela porta verde e ver-se no logradouro e sentar-se num dos bancos de pedra pintados numa tinta magenta que estala e se desfaz no calcário desses mesmos bancos, e olhar o Sol, é algo que vem a calhar, havendo sessões marcadas nesse dia, havendo ímpares ou não a partilharem as suas histórias com os seus pares, conselhos ou desabafos, avisos, lamentos ou manifestações de júbilo. Claro que quem frequenta o CAPI é, por norma, discreto – muito discreto – no que toca a vivenciarem a instituição fora das suas paredes, e a partilha com terceiros é parca, quase nula. O logradouro, e em particular no ponto mais alto do panóptico, está reservado, quase em exclusivo, para quem frequenta o CAPI. A rotina dos invulgares mudou um pouco, desde o nascimento do novo Sol. Agora, impreterivelmente, as reuniões começam sempre após a dança da tarde dos sóis. O porquê tem uma resposta óbvia, longa, e directa: A dança final dos sóis é sempre mais rápida que a dança da manhã dos sóis, mas é mais facilmente apreciada; de qualquer modo, o ritual tornou-se uma tradição na cidade, um património imaterial da alma colectiva das suas gentes. Torna-se um bom ponto de partida ou de chegada entre uma coisa e outra. É uma meditação curta, que tira a sede aos espíritos e a substitui por uma outra sede. Qualquer que essa sede seja, como saberei eu descrevê-la, se nunca vi dois sóis morrerem, e, por vezes, só ver um me aperta o peito.

Relembra-se a razão particular pela qual aqueles ímpares ali estão. Qual a resposta do Sol que nasceu, qual é a certeza de o ter lá em cima sabendo todos, os que entram em novos quietos e assustados, de movimentos presos, e os veteranos mais relaxados que se riem alto que aquele sol, aquele particular Sol, é uma invulgaridade, a maior de sempre, que nasceu na cabeça de um homem num normal dia sem qualquer significado? Não há e os psicólogos do CAPI e todos os ímpares cedo confortam essa ânsia de saber de quem, no panóptico, descobre pela primeira vez a mágica e estranha origem de mais uma estrela no seu céu, e lhe dizem que não interessa. Não importa. Não importa saber o que isso significa. O Sol é, pelo menos, um presente inesperado para quem precisa de mais uma estrela para guiar o seu caminho. Ou quem precisa de mais uma estrela para ofuscar o olhar de medo que passeia e pernoita nos seus olhos. Ou só quem precisa de um pouco mais de calor na sua alma sofrida e fria colada a uma parte inominável das costas, se pudesse sair,, como teria, já, arrancado a pele. Mas deixa que ele ta aqueça.

Que significa este Sol ter, uma noite, saído da cabeça do Sr. Sousa (era/é o nome do ímpar que frequentava o CAPI nessa altura) quando estava em fase de mudança e, pela primeira vez em muitos anos na sua vida, questionava de novo, questionava com fúria e sede e tomava para si as rédeas do seu destino com convicção e segurança? Viria a calma depois. Que significa, em última análise, este Sol no céu, vindo de um dos nossos pares, para cada um de nós aqui no CAPI? É para isso que nos juntamos aqui nas reuniões. Quando encontrares a tua resposta não precisas de a partilhar connosco; se quiseres, podes deixar de aparecer. Mas também podes continuar a vir.

O panóptico continua concorrido a cada sessão.

E depois havia ainda mais uma canção popular sobre os dois sóis que as pessoas costumavam cantar, quase como modo de cumprimento ou despedida com um sorriso, uma lenga-lenga rápida, que acho, estou agora, a lembrar-me, acho que? – começava assim: