segunda-feira, 21 de maio de 2012
Terranzona
terça-feira, 1 de maio de 2012
No Hospital
quarta-feira, 25 de abril de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
domingo, 4 de dezembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 5
Para onde foi o Sol
Para onde
Perdendo-se nas pregas das nuvens
Ostracizado pelas chuvas. Neves e dilúvios
Pescou-se a estrela sem anzol
Num crânio repousou, forjou canções de calor,
Antes
De um largar de luz se impor, brilhou
Um Sol, o Sol
O meu Sol
Cantava a canção, sem rimar.
Nas ruas arejadas da cidade e nos becos mais escuros vergados ao lixo e à humidade preta entre o chão e as paredes, nas igrejas brancas a reflectirem a luz do céu nos fiéis que a abandonam, nas casas de telhados laranja e castanhos e prateados de alumínio, vistas do castelo de pedra lá no alto com vista para o rio, nos edifícios de vidro e metal obsidiano curvados sobre os chão horizontal, nos arranha-céus a tombarem lá de cima a semearem-se no centro histórico da cidade, em todos os lugares o Sol e este novo Sol abarcavam e devoravam tudo o que encontravam. Uma luz mais parda e menos brilhante no velho Sol, no maior e no primeiro, talvez? Decerto que sim, as pessoas olhavam para cima e desejavam que as nuvens saíssem da frente para os fulgurarem mais do que nunca. Que confusão e entusiasmo, esta nova estrela bem mais pequena que a original mas bem mais forte, de repente. Uma coisa que inchou durante dias enquanto ascendia, devagar e gorda, até ao negro do espaço. As pessoas nem podiam acreditar e é claro que apareceu nos jornais e telejornais locais e internacionais. A estrela brilhava só por aquela cidade naquele canto do pequeno país, e em breve foi deixada em paz pelo resto do mundo uma vez que ela não ia a lugar nenhum, mas mudou a vida dos habitantes. Chekirout. No CAPI, o novo Sol foi presenciado e visto por todos a subir aos céus na noite, como se de um invulgar espectáculo de pirotecnia se tratasse, neutro de cheiros – este único redondo e grande brilhante foguete não fazia com que a pólvora se misturasse com a terra quente do Verão. O chão ainda estava molhado, no logradouro do CAPI. Mas a chuva parara misteriosamente. Talvez fosse, creia um céptico, o calor da estrela que evaporava as nuvens acima e – de roda agora – de si. Mas a resposta mais bela e verdadeira seria a de que o céu mergulhado na sua amante noite não se vergasse mais ao seu domínio e deixasse este pedaço de luz e claridade solares ter um parto o mais encorajador possível para tomar mais um pouco do seu novo lugar em si. No céu. Os ímpares aplaudiam e assobiavam e Jocivalter, num sorriso largo por todo o comprimento da sua cara molhada largara a postura de sarcasmo para poder ver, com os seus olhos pela primeira vez, o que já antes tinha visto.
Fizeram-se e cantaram-se imensas novas rimas e poemas, canções
Foi num dia de Novembro que o Sol de novo floriu
Abriu as novas asas pousado na luz que nunca viu
Dançou no mar, pescou novas nuvens ‘pra se enfeitar
É o novo Sol, sem nome Sol, sem nenhum nome
Para dar ou tirar
É… Vamos só sorrir para mais brancura
Reflectir nos dentes o esplendor de um novo mundo
Colado ao céu e com um véu
Destapa a luz no horizonte e diz Este novo pôr-do-sol sou eu
Com a Primavera a vir o Sol vai querer dançar e despontar
Novos romances com a Lua e quem quiser mais acompanhar
Dormirá com ela atrás dos seus cortinados despedaçados
Por meteoros e pedaços de estrelas mortas
Um pouco mais azarados
Este Sol
Este novo Sol nem nome ou assinatura
Beijando-nos o rosto
Queimando-nos o corpo
Em plumas e conversas cruas
De calor
Tornaram-se parte do imaginário colectivo da cidade: os novos raios de luz de cada canção nova aflorada da união entre as fundações de pedra e a nova estrela; que, por vezes, dançava no céu.
Era mais fácil ás pessoas apaixonarem-se. Tudo era mais intenso mas igualmente racional. Os concidadãos apaixonavam-se de forma renovada pelos seus trabalhos e assobiavam quando saíam de casa e cumprimentavam os vizinhos com sorrisos abertos, ou enamoravam-se pela ideia de mudança nas suas vidas. Tudo estava bem para quem estava feliz, e quem estava triste olhava para a nova estrela no céu; e, por momentos, talvez percebessem qualquer coisa mais. Mais qualquer coisa – para continuarem a questionar a cada passo as mesmas coisas de sempre.
Ver as ondas do mar a revolverem-se no mar em espuma e gotas de sal espirradas para o ar ganhava uma nova dimensão contemplativa. Ver os raios de Sol a intrometerem-se pelas frestas da ponte grande, de metal, que juntava pelo rio uma cidade à outra, e pelas frinchas das persianas em cada casa. Ver um nascer ou pôr-do-Sol, então, tornara-se toda uma nova experiência. Pequenas sebentas cedo começaram na rua a ser vendidas com os melhores locais para se ver o sol a pôr-se ou a nascer. A qualidade de cada sítio era, até, apaixonadamente discutida pelos adolescentes a saltarem de bairro em bairro até aos velhos nos cafés de bigodes com pontas amarelas e os cotovelos em cima de jornais húmidos. Arranjar um sítio deserto onde se pudesse ver, de este a oeste, os Sóis a encontrarem-se tornou-se numa comodidade com o preço superior ao ouro. No nascer do Sol a noite, antes da despedida final, concede-se a um púrpura no colo do horizonte a arrastar-se em borbotões pelo escuro do azul do céu, e as estrelas brancas dissolviam-se, já, nesse mesmo céu. O púrpura no céu arrastava-se então ainda mais na direcção de cada pessoa e o colo do horizonte transmutava-se para um ocre carregado. Era a chegada do velho Sol, grande, no seu caminho habitual. Mas pouco depois logo vinha o novo Sol. E este novo sol raiava da direita e nascia por ali mais saltitante que o velho Sol; ser-se mais novo e mais pequeno tem destas coisas mas e o céu, o céu com o novo céu ganhava um raio oblíquo oeste-este em tons esverdeados, por vezes, ou de um azul mais claro e esse raio quando era azul misturava-se com o ocre do antigo Sol e um verde fresco e limpo pulsava, em vez de pingar, em curvas largas, por toda a tela celeste. O Sol preenchia o fim enquanto subia e as cores desvaneciam-se apenas para um rosa de despedida e a Lua, a assomar, tímida, num longínquo céu azul. E o Sol novo nascia todo e, depois de subir, voltava a fazer uma curva descendente e um novo folgo de luz impregnava as nuvens de rosa, rosa, rosa, e se chovesse, havia sempre um arco-íris; e esses arco-íris dividiam-se e subdividiam-se com os soluços dos ventos, a passearem-se pelos dias. E o dia nascia finalmente e quem via o nascer dos sóis era congratulado pelos amigos e família. E o coração de cada um desses felizardos ficava sempre mais leve, ou mais doce. A cidade cintilava com o novo astro que escolhera ficar com ela para sempre.
Du-as
Estre-las
Umagrand’outra
Pe-quee-na
Dançaa-ram para o maaaaar(hum!)
Fize-raaaam
O pescador voltar, voltar
Voltar
Para os braços da mulher gorda que o esmaga a abraçar!
So-le
Soli-nho
Faz-melá-aaá! Um arranjiiii-nho…
Para ele ir ver o nascer do sol comii-go!
So-le
Soli-nho…
[…]
O pôr-dos-sóis tornara-se um evento social, como ir ao cinema ou deixar pingar as horas para o chão em esplanadas com os amigos. As pessoas saíam dos trabalhos antes da noite se produzir e corriam atrás da luz que falecia como uma anã branca. O amarelo tornava-se mais laranja no céu e o novo sol pintava as nuvens e pedaços mais inferiores e longínquos de céu com o sangue da sua despedida. A escuridão rodeava o céu num círculo lento e contínuo e o Sol mais novo despedia-se primeiro, a Lua já alta. Fios de clarões laranjas percorriam verticalmente o pano escuro das estrelas, e as que se encontravam no caminho desses clarões. Desses fios laranja, desses clarões. Desses clarões. As estrelas não apareciam e esses clarões, esses fios laranja, esses clarões esses fios esses clarões. Esses fios esses fios fios fios laranja esses clarões. Esses fios. Esses clarões esses fios esses clarões esses clarões esses fios laranja esses clarões esses fios esses, fios esses clarões esses fios, esses clarões. A noite cai e todos vêm esses clarões e esses fios laranjas – esses clarões laranjas, esses fios verticais laranja – em último lugar antes das estrelas se incharem de branco e a noite, azul, mais ou menos escura, com o amarelo doce e pegajoso dos candeeiros por todas as ruas se instalar, por aí, etc. Uma cidade com dois sóis durante o dia e no jardim interior do CAPI vemos particularmente bem ambas as danças dos sóis
E assim a nossa vida no céu transpareceu
Eu o Sol e tu a Lua, um filho e mais um Sol
Nosso, meu e tu,
Dançámos na rua e vimos o céu ficar em chamas
Ouvimos o cantar do mar e os pescadores com as suas canas
E na orla das ondas com as suas espumas serenas
Brilhava o reflexo dos sóis e de ti, minha Lua,
Princesa da noite que com os dois sóis nunca
Será deixada à sua sorte
Eu e tu e mais um
Um sol a lua e mais um
Um Sol
O que, visto que o CAPI tem sempre as suas portas abertas para quem queira entrar para apenas passear, passar pela porta verde e ver-se no logradouro e sentar-se num dos bancos de pedra pintados numa tinta magenta que estala e se desfaz no calcário desses mesmos bancos, e olhar o Sol, é algo que vem a calhar, havendo sessões marcadas nesse dia, havendo ímpares ou não a partilharem as suas histórias com os seus pares, conselhos ou desabafos, avisos, lamentos ou manifestações de júbilo. Claro que quem frequenta o CAPI é, por norma, discreto – muito discreto – no que toca a vivenciarem a instituição fora das suas paredes, e a partilha com terceiros é parca, quase nula. O logradouro, e em particular no ponto mais alto do panóptico, está reservado, quase em exclusivo, para quem frequenta o CAPI. A rotina dos invulgares mudou um pouco, desde o nascimento do novo Sol. Agora, impreterivelmente, as reuniões começam sempre após a dança da tarde dos sóis. O porquê tem uma resposta óbvia, longa, e directa: A dança final dos sóis é sempre mais rápida que a dança da manhã dos sóis, mas é mais facilmente apreciada; de qualquer modo, o ritual tornou-se uma tradição na cidade, um património imaterial da alma colectiva das suas gentes. Torna-se um bom ponto de partida ou de chegada entre uma coisa e outra. É uma meditação curta, que tira a sede aos espíritos e a substitui por uma outra sede. Qualquer que essa sede seja, como saberei eu descrevê-la, se nunca vi dois sóis morrerem, e, por vezes, só ver um me aperta o peito.
Relembra-se a razão particular pela qual aqueles ímpares ali estão. Qual a resposta do Sol que nasceu, qual é a certeza de o ter lá em cima sabendo todos, os que entram em novos quietos e assustados, de movimentos presos, e os veteranos mais relaxados que se riem alto que aquele sol, aquele particular Sol, é uma invulgaridade, a maior de sempre, que nasceu na cabeça de um homem num normal dia sem qualquer significado? Não há e os psicólogos do CAPI e todos os ímpares cedo confortam essa ânsia de saber de quem, no panóptico, descobre pela primeira vez a mágica e estranha origem de mais uma estrela no seu céu, e lhe dizem que não interessa. Não importa. Não importa saber o que isso significa. O Sol é, pelo menos, um presente inesperado para quem precisa de mais uma estrela para guiar o seu caminho. Ou quem precisa de mais uma estrela para ofuscar o olhar de medo que passeia e pernoita nos seus olhos. Ou só quem precisa de um pouco mais de calor na sua alma sofrida e fria colada a uma parte inominável das costas, se pudesse sair,, como teria, já, arrancado a pele. Mas deixa que ele ta aqueça.
Que significa este Sol ter, uma noite, saído da cabeça do Sr. Sousa (era/é o nome do ímpar que frequentava o CAPI nessa altura) quando estava em fase de mudança e, pela primeira vez em muitos anos na sua vida, questionava de novo, questionava com fúria e sede e tomava para si as rédeas do seu destino com convicção e segurança? Viria a calma depois. Que significa, em última análise, este Sol no céu, vindo de um dos nossos pares, para cada um de nós aqui no CAPI? É para isso que nos juntamos aqui nas reuniões. Quando encontrares a tua resposta não precisas de a partilhar connosco; se quiseres, podes deixar de aparecer. Mas também podes continuar a vir.
O panóptico continua concorrido a cada sessão.
E depois havia ainda mais uma canção popular sobre os dois sóis que as pessoas costumavam cantar, quase como modo de cumprimento ou despedida com um sorriso, uma lenga-lenga rápida, que acho, estou agora, a lembrar-me, acho que? – começava assim:
terça-feira, 25 de outubro de 2011
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Provérbios Marítimos
Como sempre, as morais aprendem-se demasiado tarde.
Se escutares os ecos das ondas vais ver que os ecos são apenas outras ondas; tempestades por alguém/afogas-te num vintém. Mar e areia. Peixes silenciosos de discurso. As águas do oceano tudo levam, tudo apagam, e os discursos que evita dar contêm em si o condão fácil da morte. Que futilidade, termos um nome para o oceano. O peixe e o pássaro. O provérbio falso atlante não conta o que depois aconteceu. Um namoro improvável. Uma aprendizagem conjunta, seguida da morte de um, ou de ambos. Quão imperdoável pode ser o mar. Ou o nadar do peixe para bem longe da superfície, e o pássaro transportado para terra, pelas correntes amigas do vento. Assim terá, provavelmente, sido. Assim é sempre: a continuidade do percurso.
Não é preciso um farol para guiar um qualquer propósito pelo mar da vida.
Só é preciso um faroleiro.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
it's nice
IN THE DRIVEWAY
ON THE BEACH
LOOKING AT THE MOON
UNDER THE STARS
BECAUSE
SEX IS GOOD
SEX IS ACTUALLY VERY GREAT
HEALTH-WISE
IT’S HEALTHY
PRACTICE SEX
DO LOTS
PROTECTED
AGAINST THE DISEASE
WHEN YOU HAVE IT
YOU FEEL LIKE A MILLION BUCKS
AND THEN YOU GO AGAIN
BECAUSE YOU LOVE IT!
YES, HAVE
SEX NOW
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
domingo, 25 de setembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 2
Uma estrela na cabeça. Uma bola luminosa e massiva composta por plasma mantida coerente pela força da gravidade. Com um gorro vermelho por cima de umas férias passadas na neve, há mais de uma década. Passeia-se por ruas secundárias e parques minúsculos onde os velhos a jogarem dominó desconhecem o estranho milagre que passa por eles personificado num Sr. Sousa com a cara crispada de preocupação. A estrela mantinha-se quietinha. O Sr. Sousa sentia o pulsar cilíndrico e a força das marés de plasma no seu interior a libertarem um calor incomodativo. Chegou a casa preocupado, cansado de pensar, e decidiu ligar à ex-mulher, querendo esmurrar-se na cara enquanto discava o número no telefone.
- Estás a dizer que te nasceu uma estrela na cabeça?
- [suspirando] Achas que estou a… mentir ou -? Nasceu mesmo, nasceu-me durante a noite e não sei o que fazer, já fui a um médico. Diz que não a pode tirar com medo de evitar a criação de um buraco negro ou um efeito de supernova.
-E não te disseram mais nada - ? se crescer ou…
- [Girando o bocal do telefone] Se – se crescer? A estrela pode crescer?
- Bom, não sei. Até que ponto é estável uma estrela? A sua massa não muda até ao fim da sua vida, embora exista uma fusão termonuclear de hidrogénio durante todo esse tempo. Não cresce nem diminui. Mas a ti nasceu-te uma estrela na cabeça, cresceu do nada, durante a noite e tudo, Sousa [até a ex-mulher do Sr. Sousa o tratava por Sousa].
- Pois é… Pois é…
- Já experimentaste tocar na estrela com a tua mão?
- Nem pensar! Já basta o calor e – mas sabes que deixei de sentir o meu cabelo? Será que é possível que a estrela esteja ligada directamente ao meu crânio ou – ou ao meu cérebro?
- Sabes, Sousa? Não sei bem como te ajudar no teu problema mas acho que devias fazer duas coisas em relação a essa estrela?
- Ai sim? E quais são essas coisas?
- A primeira é que deves fazer um cash in dessa coisa mesmo à bruta. Vai ao programa da Júlia, arranja um agente, para começar. Na pior das hipóteses, ganhas uns cobres como atracção de circo e sempre te podes despedir do teu trabalho no PBX. Ainda és entrevistado pelo canal Discovery, e tal…
- Está bem, está bem. E qual é a segunda?
- A segunda? – e a ex-mulher do Sr. Sousa fez uma curta pausa dramática – Acho que lhe devias dar um nome.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 1
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
"Her eyes were HD Green"
Em HD
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
A Fugir para a Frente
Sinto a falta do meu amor
Onde está o meu amor
Onde foi o coração do meu amor
Não sei
Não sei
Pergunto ao vento e para dentro
E para fora de mim mesmo
Onde está o meu amor
Acabam-se as canções
Mudam-se os tempos, os dias
São outras as luzes fugidias
As ilusões
E eu não sei
Não sei
Não sei para onde foi
Sinto-o perto
Ou muito longe
Suponho-o e desisto
De o encontrar
Quando olho para certos olhos
Toco em certos rostos
Perscruto sozinho o mar
Mas por
Vezes
Penso que o reencontro
À minha espera, para o agarrar
Mas dão-se as badaladas da realidade
E com saudade ou sem saudade
Aceito sempre
Deixá-lo voar
E onde ficará ele
Para onde irá pousar
Não sei
Não sei
Não sei
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Ramalah, parte 2
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Composição de Cores
Corrompe-se a visão. Dá-se espaço ao púrpura. A doença do roxo, o inocente lilás, o inquisitivo laranja vem atrás. O laranja cai e o amarelo solar reaparece. O vermelho pulsa, em invisibilidade.
Castanho, azul, cinzento, branco.
As cores em cascata.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Pedalling
Tem de haver uma maneira melhor de aprenderes a andar de bicicleta: eu levo-te ás escarpas de Sintra e pode ser que a maresia te faça bem. What say you? Conheces as histórias todas sobre o famoso microclima de Sintra, sim. Peço a carrinha ao meu tio, levamos as binas no porta-bagagens. Armo-me em music nazi, ponho uma mixtape do Mayer Hawthorne e agradeces-me depois. Nove, nove e meia à porta de tua casa? Eu sei que é cedo, mas caramba, a que horas queres lá chegar? Deixamos a carrinha ao pé de uma falésia. Subimos o resto. OU - se quiseres - arranjamos daqueles cestinhos curtidos para pormos à frente do guiador, e levamos comida para passarmos lá o dia. Achas que aguentas, que as tuas pernas aguentam?
Eu digo Sábado. Tudo bem, é só uma boa desculpa para ir ver o mar e sentir aquele vento com partículas de água salgada nos braços, na cara e é só uma boa desculpa para passar um dia contigo, mas hey, momentos são momentos. Deve haver um sítio qualquer entre os chorões onde possamos estender a nossa toalha e comer as nossas bifanas, ou assim. levamos batatas fritas de pacote. E quem diz que é um dia mal passado?
Não dispenso a mixtape, desculpa. Queria mesmo ir lá de carro. Passeamos pela estrada, subimos aquilo tudo, e vamos descendo devagarinho. Eu consigo. Podemos ver coisas que ainda não vimos, talvez - talvez o teu cabelo fuja da tua cara e dance pelo ar de forma diferente, e mesmo que eu não te diga nada, vou olhar cheio de gozo para a dança esquissa do teu cabelo a manhã toda. É esse o tipo de gajo que sou, gosto dessas coisas. O meu vai andar por aí, também, mas não é a mesma coisa (nunca é a mesma coisa). Que me dizes? Andar de Bina, poder ver o teu cabelo a dançar de maneiras novas, irmos trocando piadas enquanto nos esfalfamos a subir a serra e, a meio, talvez me rogues pragas pelo esforço que fizeste - mas é só assim que se aprende mesmo, mesmo a andar.
E também porque nunca o fizemos. Podemos ver o mar, as nossas faces, o tempo e o fim de semana a fugirem mais devagarinho. Podemos sentir que estamos a voltar para uma Lisboa mais deserta de alma e sons verdadeiros, quando voltarmos. Podemos adormecer mais rapidamente, depois de desistirmos lentamente de mais beijos e abraços.
Volto a pôr a mixtape a tocar no regresso, se quiseres. De qualquer, modo, vai acabar antes de chegarmos.
Acho que conseguimos conviver com o silêncio.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Onde está a certeza de uma tristeza que terá fim?
Onde está o doce sentimento de indiferença perante a partida do passado?
Lembro-me da primeira casa onde morei. Contrastava com a minha falta de conhecimento perante o difícil da vida. Não conhecia nada. Não conhecia a perda nem a frustração. Só os desenhos animados, e o dia que vinha a seguir ao outro.
Era uma tela em branco, na praceta da Damaia.
Não me lembro da chuva quando era mais novo. Pelo menos, não quando viva na Damaia.
Lembro-me de uma varanda alta, onde não conseguia espreitar para nada, só para a janela do terceiro andar do meu vizinho, no prédio em frente.
Gritava por ele André!, André!, e muitas mais vezes que ele aparecia a avó à janela a dar-me conta de onde ele andava. Descíamos e íamos brincar. Não me lembro ao que brincávamos os dois.
O meu pai pegava em mim e mostrava-me um quintal lá em baixo, que fazia parte do nosso prédio. Raras vezes lá entrei. Não me lembro.
Na Damaia não chovia, posso afiançar com alguma certeza. Quando me virava para voltar para casa, vinha um chão de madeira preta a saudar-me, com um sofá azul à direita onde, dizia-me a minha mãe, eu adormecia a olhar para as suas rendas brancas.
Era ainda demasiado pequeno. Ainda não tinha barba. Ainda não tinha olheiras sob os meus olhos azuis. Ainda não conhecera o prazer de fazer amor, a calma despreocupada a meio de uma viagem, os jantares nas tascas com os amigos onde as piadas se ouvem mais depressa do que se bebem as cervejas. E depois vamos todos lá para fora, Quem é que quer ir fumar um cigarro comigo enquanto não vem a conta?
Ainda não pegava no meu carro para ir ver o mar.
O meu pai primeiro deixava-me andar de triciclo na varanda. Depois, na rua. O chão, a estrada da praceta tinhas pedrinhas pretas e uma garagem permanentemente fechada mesmo lá em cima. as rodas de plástico do meu triciclo faziam barulho no chão. Mal andava. Havia outros rapazes. Mas não eram meus amigos, eram amigos do André. Jogávamos à bola, sem saber ainda que não sabia jogar à bola. Com que pé remataria?
Passo-te as mãos pelo corpo. Os meus pais estão fora. Faço isto quase pela primeira vez. A faculdade, a vida adulta, a escrita, as carreiras, os problemas, tudo pode esperar. As onze fazem-se quase a uma. Ponho um cd de trail of dead na aparelhagem. Volto para a cama a rir-me. Esqueço-me de desejar a repetição do momento. Esqueço-me de perceber que quando se é feliz é fácil, é tudo fácil. É tudo fácil demais. É fácil pensar que é assim porque é assim.
E a praceta, onde a deixei. Um dia voltei lá de carro. Fui almoçar com o meu pai ao restaurante de um amigo dele; lá perto. E quis regressar. O jardim decrépito (outro jardim) à direita, como quem nela entra, estava ao abandono. Vejo várias motas estacionadas numa praceta que dantes não tinha motas. Pessoas a conversar. O meu prédio, a minha casa, olha para mim em silêncio e quase me pergunta o que é que estou ali a fazer. Faço inversão de marcha depressa demais. Vou-me embora. Não volto lá mais.
Volto para a minha outra casa. Estou a preparar a mudança porque vou morar sozinho, com um amigo. A namorada apoia. Tudo se conjuga. A minha perna esquerda é só a minha perna esquerda. Nessa noite vou tomar café junto ao mar.
Olho para a noite, e cada onda que rebenta é uma memória.
Abraço-te/Beijo-te. Sou feliz. É fácil, penso.
A minha perna esquerda concordava.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Ramalah, parte 1
Ramalah
A sociedade era uma sociedade como a nossa, de pessoas e vidas separadas por zonas mais avançadas do que outras divergindo as paisagens meramente em alguma fauna, flora, e arquitectura nas zonas mais antigas ou "históricas"; as pessoas tinham os seus empregos, os seuspassatempos, a sua cultura; as suas religiões, entroncando em denominadores comuns de origem da existência, e da vida, milénios antes. Há algumas décadas atrás tinha-se conseguido, por esforços conjuntos de cada região e das três principais ilhas do globo, colonizar-se um dos dois satélites existentes que, perto da atmosfera da Terra, giravam envoltos numa fina névoa que a generalidade do folclore chamava a estrada dos deuses. Um mais verde, com a superfície maltratada pela colisão de alguns asteróides, e outro mais púrpura, de superfície mais limpa, que o povo entendia ter uma natureza mais feminina, e era este que tinha sido colonizado há alguns anos atrás por uma equipa de astronautas, cientistas, e só agora se estavam a considerar os efeitos da gravidade heterogénea - que oscilava consoante a passagem da Lua verde por dentro da própria órbita da Lua púrpura - na primeira geração de alguns meninos e meninas que nasciam nas bases científicas, gerados no modo tradicional entre os cientistas homens e mulheres que Habitavam - os seus humores oscilantes e as suas alturas ultrapassando os dois metros pela puberdade, devido à fraca gravidade.
Era uma sociedade que se preparava para entrar "no futuro", como assim o sentia, e estava feliz porque a idade contemporânea não tinha, ainda, destruído a civilização engedrando, subconscientemente, o seu auto-devoramento. Há meros dois séculos atrás o destino destes homens e mulheres que viviam neste planeta com duas luas e caminhavam bípedes e falavam algumas línguas motivadas pelo afastamento das três principais ilhas pelo globo que geram, como se sabe, divergências na cultura, na forma de estar e até em traços físicos, estéticos e práticos consoante o clima e a geografia, fora pela primeira vez traçado quando físicos e cientistas detectaram um largo asteróide em colisão com a Terra. Noutros tempos, mero meio século atrás, o tamanho do asteróide teria sido suficiente para obliterar grande parte da vida pluri-celular. Mas nesse dia as nações do planeta uniram-se para descortinar a melhor maneira de destruir o asteróide ou desviá-lo da sua rota. O plano resultou, com o lançamento de uma ogiva nuclear que detonou perto da superfície do corpo celeste, tendo levado o mesmo a quebrar-se em dois e uma das metades ainda hoje, provavelmente, se encontra a navegar pelo espaço; a outra seguiu um rumo inesperado e chocou contra a Lua púrpura, provocando uma chuva de meteoros e estrelas cadentes que não teve impacto de maior. O que deixou no próprio satélite, porém, teve muito mais impacto para a população humana desse planeta: uma cratera, grande, observável a olho nú, numa Lua que, com a outra, ocupava cerca de um décimo do céu visível, excepto quando a órbita da Lua púrpura a punha do lado oposto da Lua verde, escondendo-a, assinalando com isto o ano novo para todos na Terra. Uma cratera que, perfeitamente circular com os seus laivos verticais desde o ponto de impacto até ao seu horizonte de eventos, foi entendida por todos como o sinal derradeiro de que, agora, dominava-se verdadeiramente o próprio destino. Um sinal de que o presente seria a partir daí esse momento, e o passado, ou a ideia do passado, estaria defenitivamente deixada para trás. O que viria depois só poderia ser entendido, no depois desse próprio depois, como um futuro anterior. O Homem vira-se, de repente, na necessidade de não mais correr com o intuito de fugir. Agora era o dono do seu próprio destino.
E assim a sociedade evoluiu e prosperou mais, com o objectivo, agora comum, de evoluir cada vez mais e mais, procurando esquecer as quezílias de natureza económica que durante tanto tempo tinham dominado a vida dos seus antepassados e trisavós e bisavós, ecos de um instinto de sobrevivência do mais forte cada vez mais desconexo com o seu verdadeiro propósito. Mas não nos enganemos: não eram superiores a nós, eram apenas pessoas que tinham, finalmente, descoberto o seu verdadeiro propósito enquanto espécie, e decidiram fazer disso a meta comum das suas existências. Estavam preparadas para o futuro.
Mas eis que, um dia, o impossível aconteceu. No passado, estas pessoas tinham tido as suas vindas de deuses e os seus profetas; dizia-se até que as montanhas de Ráma e Lá (estruturas rochosas fazendo lembrar pirâmides invertidas que os mais brilhantes engenheiros não conseguiam compreender, factualmente, limitando-se às conjecturas, como se mantinham ainda em pé ou como tinham sido escavadas) tinham sido construídas não por uma antiga civilização mas sim a mando directos dos dois deuses: o Tudo e o Nada, a sua contraparte, pois para esta civilização tudo tinha uma dualidade e nada poderia ser verdadeiramente uno: existe em tudo o contrário mesmo no interior de algo singular; não existia, sequer, nenhum número que indicasse a unidade na matemática deste povo, pois nada é meramente inteiro e só. Os seus deuses Ráma e Lá, de acordo com as profecias, criaram a dualidade una pela primeira vez no universo, manifestações dos seus próprios contrários (na verdade, um e outro), no planeta onde os homens habitavam: os homens. Ráma e Lá criaram o homem - e no seu contrário de dualidade criaram também a mulher, ao mesmo tempo, e ainda no presente homens e mulheres não tinham encontrado a definitiva resposta sobre quem tinha sido feito à imagem e semelhança da dualidade una de cada um. Quando os homens aprenderam que a única unidade eram eles, por terem em si a chama sagrada dos criadores do universo, Ráma e Lá partiram; Deixaram as duas Luas, como recordação da sua passagem pela Terra, tendo também criado e instruídos os primeiros sacerdotes - homens por eles escolhidos para perpetuarem os seus ensinamentos - para redigirem as palavras sagradas em todas as superfícies de todas as maneiras possíveis; e para tentarem descobrir em que coisas era Ráma e em que coisas era Lá; se o homem, se a mulher; quem tinha criado o quê; o que pertencia verdadeiramente a quem. Dizia-se que, quando a raça humana finalmente o descobrisse, os deuses voltariam e, finalmente, dariam a conhecer aos homens as chaves para ultrapassarem as barreiras físicas dos seus corpos e criarem novas dualidades e, quando morressem, finalmente encontrassem a verdadeira Unidade. Mas tinham-sepassado já alguns milénios; os profetas da vinda dos deuses eram cada vez menos, principalmente no último milénio, e contestava-se já a veracidade histórica dos seus feitos, dos seus milagres. Uma ateísmo mais pragmático, potenciado também pela destruição do asteróide e evolução e revolução mentais humanas, bem como várias variantes de agnosticismo e espiritualismo afastados de ideias religiosas pré-concebidas, floresciam. a sociedade avançava, e a religião começava naturalmente a ser posta em causa, e sim, era belo vê-lo a evoluir tendo conseguindo vencer o ponto de ruptura da perenidade da sua existência. Mas esse impossível acontecera num belo dia, num normal e simples dia de Sol nalguns lados e de chuva noutros, em que os deuses regressaram.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Histórias curtas, 3
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Toda a Gente a Fugir para a Frente.
O faroleiro lançava as suas redes ao mar.
Lançava as redes ao mar. Dando-lhes os gestos precisos, soltos, cumprimentados pelos borrifos de água das ondas encapeladas contra a sua roupa, contra o seu corpo. Contra a sua face de rugas duras.
Lançava e dava as redes ao mar contra a imensidão do céu verde e cheio de nuvens; contra a areia molhada, fria, a enrolar-se nos seus pés nus. Nas suas calças arregaçadas.
Nas mãos gretadas e vincadas pelos sulcos grotescos das dificuldades e dos trabalhos.
Contra os olhos semicerrados, contra o ar bondoso e compenetrado, contra a velhice e contra a solidão. Alicerces do farol.
Contra a tempestade que o crepúsculo traria antes de cair, devagarinho, nos braços da noite.
O faroleiro lançava as redes ao mar. Gostava de pescar.
Que fazes tu, faroleiro, que não estás no farol?, perguntou um menino que caminhava pela praia.
Estou a lançar estas redes ao mar para pescar peixe, respondeu-lhe o faroleiro. E já liguei o meu farol.
O vento virava-se e rebolava-se como as crianças traquinas; subia, descia, estava em toda a parte, brincava na rebentação das ondas. As redes eram recolhidas e não traziam nenhum peixe. O faroleiro foi tentando.
E porque pescas?
As nuvens engrossavam, as luzes nas casas, ao fundo, longe, longe; acendiam-se. Corriam-se os cortinados. Fechavam-se as janelas.
Pesco porque tenho de pescar. E porque gosto de pescar. Mesmo se não vier nenhum peixe. Vou pescando. Na esperança de receber alguma coisa do mar.
Mas pescador
E o menino foi-se embora. Brincar para fora da praia. Para outro lugar. O faroleiro sentia os seus suspiros murmurados, quando pegou nas redes, antes de novamente as atirar.
E foi aí que percebeu que estava velho.
No limite da tempestade.
Velho demais para voltar a qualquer antes, a qualquer atrás.
Então decidiu apagar para sempre a luz do seu farol.
E nunca mais contemplar o mar.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Uma astuta observação ao álbum: Source Tags and Codes, ...The Trail of Dead, feito de memória ao som de The Weeknd - House of Balloons [1]
domingo, 24 de julho de 2011
sexta-feira, 22 de julho de 2011
[Remix]; _______
quinta-feira, 21 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Letra de Canção: Estrangeiro
sábado, 16 de julho de 2011
Dentro e Fora
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Hum.
sábado, 9 de julho de 2011
quarta-feira, 6 de julho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
Contos
A Quinta do Sr. Vyclac
Na quinta do Sr. Vyclac as portas abriam-se e fechavam-se com explosões e oceanos profundos atrás delas, e as portas eram muitas. A noite trazia consigo a aurora boreal que encharcava de estrelas flutuantes toda a casa e os campos adjacentes;, passavam, tilintando o seu brilho pelas ervas altas. No Verão, o vento e o calor secavam até à morte, até à sonolência, tudo o que existisse, até que a terra se desvanecesse até às pedras embebidas em pó por debaixo delas, e a casa desfalecesse, em pé, clamando de si ondas de calor das suas paredes brancas. No Outono as portas abriam-se e fechavam-se mais vezes, mais descontrolada e desenfreadamente, e as árvores do outro lado deixavam as folhas cair, e os animais entravam; as árvores eram submergidas pelos oceanos. As visões tornavam-se mais autênticas, mais nefastas. O Sr. Vyclac era o fantasma que passava por uma porta e outra, pelos corredores, intangível, pertença da quinta e a quinta parte dele; a tudo era indolor;. Nunca estóico. A Casa erguia-se das suas fundações e lutava contra a entrada das coisas descontroladas que percorriam a casa e a quinta. Passava-se a estação com uma outra vida, cheia da somas dessas vidas. No Inverno, caía a neve e os arremedos de silêncio, soluços breves. De silêncio. Os dias transmutavam-se em imobilização e quietude. Dentro da casa, uma ausência de formas. De portas, a baterem em explosões. O fantasma, cansado, do Sr. Vyclac, ía para o meio dos campos da quinta. E adormecia. Um dormir sem sonhos, uma prece respondida ao fim de tantos anos, de tantas eras. Um sono, sem sonhos. Um simples dormir. Dormia nos campos vastos, silenciosos. Estéreis. A neve caía nos campos. E o fantasma do Sr. Vyclac dormia. Adormecia, cansado, e sem vontade de permanecer morto. Em cima da neve. No chão. Por entre as ervas. Deixando que a neve o afagasse, e lhe caísse em cima, durante a noite. Com a aurora boreal, a inundar de luz verde a noite brilhante, por baixo da quinta deserta.
Depois vinha a Primavera, e que importava isso.
Aquela quinta estava amaldiçoada, e não era só pela presença do Sr. Vyclac. Que, triste, não o desejava. Não era, sequer, pela presença do seu próprio dono. Era simplesmente assim. Já o era muito antes do Sr. Vyclac ser um fantasma, e para sempre seria assim, até que a quinta fosse arrancada desta terra, pelos ventos impiedosos, de um mundo imperdoável. Por baixo do solo tinha que se movimentar uma força revoltada e tenaz, revoltada e tenaz o suficiente para se fazer permanecer a si própria. Para a eternidade, até que se esgotasse na raiva de si mesma, e destruísse a quinta. E acabasse com tudo, no falhanço do destino que para si própria criara. Tudo manifestar. Fazer com que as portas batessem. Em gritos de selvajaria, tentando irromper de dentro de si mesma, para a vida. Fazendo com que, finalmente, uma das portas a deixasse sair. Amar a quinta do Sr. Vyclac para poder fazê-lo: irromper em Vida. Quando isso acontecesse, o fantasma do Sr. Vyclac pereceria. Finalmente.
Acima do solo, porém, a história continuava a ser outra.
As portas abriam-se.
Abriam-se, descontroladas, e à quinta chegavam cascatas e florestas. Coisas perdidas, ideias de longevidade e rebeldia, gritos. Nomes murmurados e repetidos, visões do futuro saturadas de sons, ruídos estrangeiros, maquinais. Desconhecidos ás próprias portas, à quinta do Sr. Vyclac e ao seu fantasma. Espirais de dúvidas. Homens e mulheres já sem nome que chegavam a passar pelas portas, exaustos, e que depois eram comidos pela fauna monstruosa, ou que voltavam, depois, a desaparecer. Nunca permaneciam ali. Os animais e os perigos, as portas que se abriam em explosões de vida ou de lugares, de coisas, tudo atentava contra a vida. Lava, candelabros. O cheiro a uma barraca de cachorros quentes numa cidade pós-industrializada, adornada, naquele momento, por uma chuva pontual, estéril, cinzenta.
E perguntas. Perguntas que irrompiam pelas portas e eram recebidas pelas paredes brancas da casa, ouvintes atentas. Pela sua mobília suspensa no ar. Inundada pelas aparições de água e de orações que também passavam pelas portas, e deslizavam no ar. Com Graça. Pelo fantasma do Sr. Vyclac. Que desaparecia.
Assim passavam as estações.






