segunda-feira, 21 de maio de 2012

Terranzona


Quando alguém é bom tem a capacidade de se tornar santo – realizar milagres. Transcender-se em vida. Tocar a luz inicial e ver para além das regras da física. Estas pessoas são santas. E morrem como todas as outras.
Ora, quando alguém percorre o caminho da santidade e consegue chegar ao seu destino final, está completamente transformado. Mas não são imunes à sua própria deterioração das carnes que a compõem. Por norma – sempre, na verdade; é um requisito essencial para percorrer esse mesmo caminho – são abnegadas. Daí não procurarem a permanência da vida para além do que a natureza os agracie. São amados por quase todas as pessoas. Velhas, deixam que o seu corpo e espírito sejam entregues à grande questão.
Quando um destes santos se recusa a morrer – porque o seu corpo simplesmente não os deixa – a situação (peculiar, rara e de extrema importância) é apresentada ao Santo Padre para que sobre ela se pronuncie, na ponderação da Terranzona. Raras vezes não é concedida; para que o pedido de Terranzona seja pedido, é preciso primeiro que alguém tenha atingido a santidade em vida; que seja conhecida, essa santidade, por uma vasta franja de fiéis.
Os padres escolhidos para cumprirem o ritual são escolhidos a dedo pelo Santo Padre (não há necessidade de qualquer confirmação de veracidade uma vez que só os cardeais lhe podem apresentar o pedido de Terranzona). Poucos padres treinam e estudam o Ritual, e menos ainda são escolhidos para o ritual. Por norma, passam as suas vidas inteiras sem o realizar.
O padre terá de ir ter com o santo moribundo, preso à Terra sem poder ir ter com o seu Senhor. Preso ao mundo imperfeito do qual já não faz, entende-se, parte. O padre tem de sentir a santidade do santo. Tem de rezar a reza ouvida apenas pelo santo. A extrema-unção não é necessária, tampouco a confissão. É retirada a navalha cerimonial das vestes negras do padre após a reza. Deve ser enterrada bem, e profundamente, no peito do santo, que assim poderá finalmente, com a ajuda do seu irmão confidente de Deus, ascender livremente.
E é este o ritual chamado de Terranzona.

terça-feira, 1 de maio de 2012

No Hospital

Há uma diferença fundamental que, ainda assim, compreende a existência total da nossa estadia forçada num hospital a ela indissociável, na verdade, que se traduz no binómio dia/noite,; essa diferença fundamental. As lâmpadas, a tremerem também elas doentes, umas num soluço permanente antes do eléctrico final que as faz permanecer ligadas, com o halogéneo a vibrar dentro dos cilindros de plástico vitrificado, são apenas uma das coisas que se nota nesse binómio, mas_______, com problemas crónicos em adormecer sem se virar/revirar, mexer os membros como entidades mais despertas naquele específico período temporal – a noite. A noite não passa, só avança. Dizia, chegou-se ao desespero. Uma apendicite é rápida: faz-se uma pequena incisão na parte inferior direita do abdómen e, geralmente, chama-se o estagiário para girar, cortar e coser o pedaço de carne inchada e fervilhante de inflamação que faz uma curva de dor nas entranhas. Mas um acidente de moto com fractura exposta da perna e perfuração do pâncreas, sem sequer entrarmos, para os leigos, nas ramificações clínicas que daí advêm, é uma história completamente diferente. Ao tempo do acidente – que ocorreu pelas onze e quarenta e cinco da manhã, seguindo no lugar do pendura em que quem conduzia a moto, com a pintura vermelha e preta a evidenciar essas mesmas características, era o seu primo _______, duas dioptrias em cada olho embora, na verdade, o culpado fosse, admita-se, não a sua miopia que nem sequer é, à idade de 27 anos, galopante, mas sim o seu desrespeito pela distância de segurança em relação ao carro da frente e má leitura das intencionalidades e estilo de condução do quando confrontado, subitamente, com um sinal amarelo é rápido demais e os corpos voam cada um para seu lado, o de Joel aloja-se inanimado entre o capot e o pára-brisas – Miguel ainda não conhece as teorias dos gritos, da dor – e do poder que têm de transformação, já lá vamos – e das relações ocularmente insultuosas de cada parede em estuque leproso ou pintura plástica suada de cores de irrepreensível ambiguidade – branco?, não branco?, sempre –, janelas de madeira seca, asfixiada pelo ar impregnado de iodo e amoníaco, vidros a reflectirem a luz em tons errados, laranjas e prateados, culpa da película residente de sebo e gordura em cada quadrado de vidro, as lâmpadas de que já se falou, doentes silenciosos a olharem com as dores, e os ferros, e os gessos e os tubos de plástico a saírem dos seus corpos para as paredes, felicidades cinzentas quando é hora das visitas, as escondidas salas de recobro e os frios e metálicos blocos operatórios que, afastados, providenciam a casa de doentes com frescas e novas aquisições de dor, desespero crónico pela pausa forçada numa vivência Lá Fora; sobretudo novas formas de ver e sentir o tempo; enquanto se pensa que a noção de eternidade é muito mais insuportável quando um mero bafo desse mesmo conceito nos é imposto, e nós imóveis, em conversas com a dor, a dor interna das carnes remexidos por facas e pregos, parafusos; a imobilidade, sem querer presumir que teremos que o aceitar – estamos doentes, fracos, demasiado doentes e fracos e, sobretudo, inválidos – e paciência. E dor ainda. E desespero nas quantidades certas. O Inem demorou pouco mais de treze minutos a chegar ao local. Desconhece-se quem fez a chamada. O dia no hospital tem o tempo congelado, parado nos pormenores inúteis da imobilidade e do silêncio imposto pela própria natureza do lugar. A noite apenas desafia a sanidade e transforma quem é enlouquecido pela dor e pela insónia numa criatura de pensamentos brancos, onde, um dia, a dor transmuta-se em raiva pura – Mas, isto,_____ ainda não sabe. Acabou de entrar em choque e não voltou a ver o primo. A perna é um estremecimento alienígena, pretendendo logo autodevorar-se. A barriga limita-se a implodir. O som das sirenes vibra, desfocado, pelo ar. A agonia cai como uma gigantesca gota de mel sobre o local do acidente. O carro fumega. Em laivos. Todas as cores e cheiros e sons tornam-se, em ondas, ou mais intensos, ou mais desfocados. As sirenes da ambulância, enquanto os médicos com luvas brancas se aproximam de ____, repara, tocam, girando, ininterruptamente. O fim da dor não vem com elas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Turn it up.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Miguelti – Tigre Azul

(agora Depois da Mina)

domingo, 8 de janeiro de 2012



Comentadores de Marvel Vs. Capcom 3.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012



Benvindos a 2012.

domingo, 4 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011



"Um post por dia todos os dias de Dezembro era até uma boa ideia", pensou ele.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 5

Para onde foi o Sol

Para onde

Perdendo-se nas pregas das nuvens

Ostracizado pelas chuvas. Neves e dilúvios

Pescou-se a estrela sem anzol

Num crânio repousou, forjou canções de calor,

Antes

De um largar de luz se impor, brilhou

Um Sol, o Sol

O meu Sol

Cantava a canção, sem rimar.

Nas ruas arejadas da cidade e nos becos mais escuros vergados ao lixo e à humidade preta entre o chão e as paredes, nas igrejas brancas a reflectirem a luz do céu nos fiéis que a abandonam, nas casas de telhados laranja e castanhos e prateados de alumínio, vistas do castelo de pedra lá no alto com vista para o rio, nos edifícios de vidro e metal obsidiano curvados sobre os chão horizontal, nos arranha-céus a tombarem lá de cima a semearem-se no centro histórico da cidade, em todos os lugares o Sol e este novo Sol abarcavam e devoravam tudo o que encontravam. Uma luz mais parda e menos brilhante no velho Sol, no maior e no primeiro, talvez? Decerto que sim, as pessoas olhavam para cima e desejavam que as nuvens saíssem da frente para os fulgurarem mais do que nunca. Que confusão e entusiasmo, esta nova estrela bem mais pequena que a original mas bem mais forte, de repente. Uma coisa que inchou durante dias enquanto ascendia, devagar e gorda, até ao negro do espaço. As pessoas nem podiam acreditar e é claro que apareceu nos jornais e telejornais locais e internacionais. A estrela brilhava só por aquela cidade naquele canto do pequeno país, e em breve foi deixada em paz pelo resto do mundo uma vez que ela não ia a lugar nenhum, mas mudou a vida dos habitantes. Chekirout. No CAPI, o novo Sol foi presenciado e visto por todos a subir aos céus na noite, como se de um invulgar espectáculo de pirotecnia se tratasse, neutro de cheiros – este único redondo e grande brilhante foguete não fazia com que a pólvora se misturasse com a terra quente do Verão. O chão ainda estava molhado, no logradouro do CAPI. Mas a chuva parara misteriosamente. Talvez fosse, creia um céptico, o calor da estrela que evaporava as nuvens acima e – de roda agora – de si. Mas a resposta mais bela e verdadeira seria a de que o céu mergulhado na sua amante noite não se vergasse mais ao seu domínio e deixasse este pedaço de luz e claridade solares ter um parto o mais encorajador possível para tomar mais um pouco do seu novo lugar em si. No céu. Os ímpares aplaudiam e assobiavam e Jocivalter, num sorriso largo por todo o comprimento da sua cara molhada largara a postura de sarcasmo para poder ver, com os seus olhos pela primeira vez, o que já antes tinha visto.

Fizeram-se e cantaram-se imensas novas rimas e poemas, canções

Foi num dia de Novembro que o Sol de novo floriu

Abriu as novas asas pousado na luz que nunca viu

Dançou no mar, pescou novas nuvens ‘pra se enfeitar

É o novo Sol, sem nome Sol, sem nenhum nome

Para dar ou tirar

É… Vamos só sorrir para mais brancura

Reflectir nos dentes o esplendor de um novo mundo

Colado ao céu e com um véu

Destapa a luz no horizonte e diz Este novo pôr-do-sol sou eu

Com a Primavera a vir o Sol vai querer dançar e despontar

Novos romances com a Lua e quem quiser mais acompanhar

Dormirá com ela atrás dos seus cortinados despedaçados

Por meteoros e pedaços de estrelas mortas

Um pouco mais azarados

Este Sol

Este novo Sol nem nome ou assinatura

Beijando-nos o rosto

Queimando-nos o corpo

Em plumas e conversas cruas

De calor

Tornaram-se parte do imaginário colectivo da cidade: os novos raios de luz de cada canção nova aflorada da união entre as fundações de pedra e a nova estrela; que, por vezes, dançava no céu.

Era mais fácil ás pessoas apaixonarem-se. Tudo era mais intenso mas igualmente racional. Os concidadãos apaixonavam-se de forma renovada pelos seus trabalhos e assobiavam quando saíam de casa e cumprimentavam os vizinhos com sorrisos abertos, ou enamoravam-se pela ideia de mudança nas suas vidas. Tudo estava bem para quem estava feliz, e quem estava triste olhava para a nova estrela no céu; e, por momentos, talvez percebessem qualquer coisa mais. Mais qualquer coisa – para continuarem a questionar a cada passo as mesmas coisas de sempre.

Ver as ondas do mar a revolverem-se no mar em espuma e gotas de sal espirradas para o ar ganhava uma nova dimensão contemplativa. Ver os raios de Sol a intrometerem-se pelas frestas da ponte grande, de metal, que juntava pelo rio uma cidade à outra, e pelas frinchas das persianas em cada casa. Ver um nascer ou pôr-do-Sol, então, tornara-se toda uma nova experiência. Pequenas sebentas cedo começaram na rua a ser vendidas com os melhores locais para se ver o sol a pôr-se ou a nascer. A qualidade de cada sítio era, até, apaixonadamente discutida pelos adolescentes a saltarem de bairro em bairro até aos velhos nos cafés de bigodes com pontas amarelas e os cotovelos em cima de jornais húmidos. Arranjar um sítio deserto onde se pudesse ver, de este a oeste, os Sóis a encontrarem-se tornou-se numa comodidade com o preço superior ao ouro. No nascer do Sol a noite, antes da despedida final, concede-se a um púrpura no colo do horizonte a arrastar-se em borbotões pelo escuro do azul do céu, e as estrelas brancas dissolviam-se, já, nesse mesmo céu. O púrpura no céu arrastava-se então ainda mais na direcção de cada pessoa e o colo do horizonte transmutava-se para um ocre carregado. Era a chegada do velho Sol, grande, no seu caminho habitual. Mas pouco depois logo vinha o novo Sol. E este novo sol raiava da direita e nascia por ali mais saltitante que o velho Sol; ser-se mais novo e mais pequeno tem destas coisas mas e o céu, o céu com o novo céu ganhava um raio oblíquo oeste-este em tons esverdeados, por vezes, ou de um azul mais claro e esse raio quando era azul misturava-se com o ocre do antigo Sol e um verde fresco e limpo pulsava, em vez de pingar, em curvas largas, por toda a tela celeste. O Sol preenchia o fim enquanto subia e as cores desvaneciam-se apenas para um rosa de despedida e a Lua, a assomar, tímida, num longínquo céu azul. E o Sol novo nascia todo e, depois de subir, voltava a fazer uma curva descendente e um novo folgo de luz impregnava as nuvens de rosa, rosa, rosa, e se chovesse, havia sempre um arco-íris; e esses arco-íris dividiam-se e subdividiam-se com os soluços dos ventos, a passearem-se pelos dias. E o dia nascia finalmente e quem via o nascer dos sóis era congratulado pelos amigos e família. E o coração de cada um desses felizardos ficava sempre mais leve, ou mais doce. A cidade cintilava com o novo astro que escolhera ficar com ela para sempre.

Du-as

Estre-las

Umagrand’outra

Pe-quee-na

Dançaa-ram para o maaaaar(hum!)

Fize-raaaam

O pescador voltar, voltar

Voltar

Para os braços da mulher gorda que o esmaga a abraçar!

So-le

Soli-nho

Faz-melá-aaá! Um arranjiiii-nho…

Para ele ir ver o nascer do sol comii-go!

So-le

Soli-nho…

[…]

O pôr-dos-sóis tornara-se um evento social, como ir ao cinema ou deixar pingar as horas para o chão em esplanadas com os amigos. As pessoas saíam dos trabalhos antes da noite se produzir e corriam atrás da luz que falecia como uma anã branca. O amarelo tornava-se mais laranja no céu e o novo sol pintava as nuvens e pedaços mais inferiores e longínquos de céu com o sangue da sua despedida. A escuridão rodeava o céu num círculo lento e contínuo e o Sol mais novo despedia-se primeiro, a Lua já alta. Fios de clarões laranjas percorriam verticalmente o pano escuro das estrelas, e as que se encontravam no caminho desses clarões. Desses fios laranja, desses clarões. Desses clarões. As estrelas não apareciam e esses clarões, esses fios laranja, esses clarões esses fios esses clarões. Esses fios esses fios fios fios laranja esses clarões. Esses fios. Esses clarões esses fios esses clarões esses clarões esses fios laranja esses clarões esses fios esses, fios esses clarões esses fios, esses clarões. A noite cai e todos vêm esses clarões e esses fios laranjas – esses clarões laranjas, esses fios verticais laranja – em último lugar antes das estrelas se incharem de branco e a noite, azul, mais ou menos escura, com o amarelo doce e pegajoso dos candeeiros por todas as ruas se instalar, por aí, etc. Uma cidade com dois sóis durante o dia e no jardim interior do CAPI vemos particularmente bem ambas as danças dos sóis

E assim a nossa vida no céu transpareceu

Eu o Sol e tu a Lua, um filho e mais um Sol

Nosso, meu e tu,

Dançámos na rua e vimos o céu ficar em chamas

Ouvimos o cantar do mar e os pescadores com as suas canas

E na orla das ondas com as suas espumas serenas

Brilhava o reflexo dos sóis e de ti, minha Lua,

Princesa da noite que com os dois sóis nunca

Será deixada à sua sorte

Eu e tu e mais um

Um sol a lua e mais um

Um Sol

O que, visto que o CAPI tem sempre as suas portas abertas para quem queira entrar para apenas passear, passar pela porta verde e ver-se no logradouro e sentar-se num dos bancos de pedra pintados numa tinta magenta que estala e se desfaz no calcário desses mesmos bancos, e olhar o Sol, é algo que vem a calhar, havendo sessões marcadas nesse dia, havendo ímpares ou não a partilharem as suas histórias com os seus pares, conselhos ou desabafos, avisos, lamentos ou manifestações de júbilo. Claro que quem frequenta o CAPI é, por norma, discreto – muito discreto – no que toca a vivenciarem a instituição fora das suas paredes, e a partilha com terceiros é parca, quase nula. O logradouro, e em particular no ponto mais alto do panóptico, está reservado, quase em exclusivo, para quem frequenta o CAPI. A rotina dos invulgares mudou um pouco, desde o nascimento do novo Sol. Agora, impreterivelmente, as reuniões começam sempre após a dança da tarde dos sóis. O porquê tem uma resposta óbvia, longa, e directa: A dança final dos sóis é sempre mais rápida que a dança da manhã dos sóis, mas é mais facilmente apreciada; de qualquer modo, o ritual tornou-se uma tradição na cidade, um património imaterial da alma colectiva das suas gentes. Torna-se um bom ponto de partida ou de chegada entre uma coisa e outra. É uma meditação curta, que tira a sede aos espíritos e a substitui por uma outra sede. Qualquer que essa sede seja, como saberei eu descrevê-la, se nunca vi dois sóis morrerem, e, por vezes, só ver um me aperta o peito.

Relembra-se a razão particular pela qual aqueles ímpares ali estão. Qual a resposta do Sol que nasceu, qual é a certeza de o ter lá em cima sabendo todos, os que entram em novos quietos e assustados, de movimentos presos, e os veteranos mais relaxados que se riem alto que aquele sol, aquele particular Sol, é uma invulgaridade, a maior de sempre, que nasceu na cabeça de um homem num normal dia sem qualquer significado? Não há e os psicólogos do CAPI e todos os ímpares cedo confortam essa ânsia de saber de quem, no panóptico, descobre pela primeira vez a mágica e estranha origem de mais uma estrela no seu céu, e lhe dizem que não interessa. Não importa. Não importa saber o que isso significa. O Sol é, pelo menos, um presente inesperado para quem precisa de mais uma estrela para guiar o seu caminho. Ou quem precisa de mais uma estrela para ofuscar o olhar de medo que passeia e pernoita nos seus olhos. Ou só quem precisa de um pouco mais de calor na sua alma sofrida e fria colada a uma parte inominável das costas, se pudesse sair,, como teria, já, arrancado a pele. Mas deixa que ele ta aqueça.

Que significa este Sol ter, uma noite, saído da cabeça do Sr. Sousa (era/é o nome do ímpar que frequentava o CAPI nessa altura) quando estava em fase de mudança e, pela primeira vez em muitos anos na sua vida, questionava de novo, questionava com fúria e sede e tomava para si as rédeas do seu destino com convicção e segurança? Viria a calma depois. Que significa, em última análise, este Sol no céu, vindo de um dos nossos pares, para cada um de nós aqui no CAPI? É para isso que nos juntamos aqui nas reuniões. Quando encontrares a tua resposta não precisas de a partilhar connosco; se quiseres, podes deixar de aparecer. Mas também podes continuar a vir.

O panóptico continua concorrido a cada sessão.

E depois havia ainda mais uma canção popular sobre os dois sóis que as pessoas costumavam cantar, quase como modo de cumprimento ou despedida com um sorriso, uma lenga-lenga rápida, que acho, estou agora, a lembrar-me, acho que? – começava assim:

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Provérbios Marítimos

Havia um provérbio da cultura atlante sobre um peixe e um pássaro que faziam pouco um do outro por um não saber nadar, e o outro não saber voar. Até que olharam um para o outro e perceberam o quão tolos eram. Este provérbio nunca existiu. Foi extraído de um poema que nunca existiu, pediu simplicidade e beleza emprestadas que o ficcionar de uma cultura não conseguem. Perdeu-se nas areias do tempo. Ou nas vagas infinitas do oceano da memória. Revolto e encapelado, as traições que nos faz. Havia esse homem que o disse, e havia o homem que o ouviu. Dualidades. Talvez tivesse sido um atlante, a afogar-se na água, imóvel, asfixiado pela água salgada, negra, nos pulmões. O outro homem lançou as suas redes e pescou um outro peixe. Vários desejos o peixe conferia, obrigado por não me teres pescado. O barco novo, a casa nova, o título de imperador, e a tempestade que se aproximava. Ao final da noite, voltou ao seu barracão.
Como sempre, as morais aprendem-se demasiado tarde.
Se escutares os ecos das ondas vais ver que os ecos são apenas outras ondas; tempestades por alguém/afogas-te num vintém. Mar e areia. Peixes silenciosos de discurso. As águas do oceano tudo levam, tudo apagam, e os discursos que evita dar contêm em si o condão fácil da morte. Que futilidade, termos um nome para o oceano. O peixe e o pássaro. O provérbio falso atlante não conta o que depois aconteceu. Um namoro improvável. Uma aprendizagem conjunta, seguida da morte de um, ou de ambos. Quão imperdoável pode ser o mar. Ou o nadar do peixe para bem longe da superfície, e o pássaro transportado para terra, pelas correntes amigas do vento. Assim terá, provavelmente, sido. Assim é sempre: a continuidade do percurso.
Não é preciso um farol para guiar um qualquer propósito pelo mar da vida.
Só é preciso um faroleiro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

/ \

E de repente, Groove; Groove por todo o lado.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

it's nice

WE HAVE SEX
IN THE DRIVEWAY
ON THE BEACH
LOOKING AT THE MOON
UNDER THE STARS
BECAUSE
SEX IS GOOD
SEX IS ACTUALLY VERY GREAT
HEALTH-WISE
IT’S HEALTHY
PRACTICE SEX
DO LOTS
PROTECTED
AGAINST THE DISEASE
WHEN YOU HAVE IT
YOU FEEL LIKE A MILLION BUCKS
AND THEN YOU GO AGAIN
BECAUSE YOU LOVE IT!

YES, HAVE
SEX NOW

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011




A paz à superfície dos labirintos sem fim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 2

Uma estrela na cabeça. Uma bola luminosa e massiva composta por plasma mantida coerente pela força da gravidade. Com um gorro vermelho por cima de umas férias passadas na neve, há mais de uma década. Passeia-se por ruas secundárias e parques minúsculos onde os velhos a jogarem dominó desconhecem o estranho milagre que passa por eles personificado num Sr. Sousa com a cara crispada de preocupação. A estrela mantinha-se quietinha. O Sr. Sousa sentia o pulsar cilíndrico e a força das marés de plasma no seu interior a libertarem um calor incomodativo. Chegou a casa preocupado, cansado de pensar, e decidiu ligar à ex-mulher, querendo esmurrar-se na cara enquanto discava o número no telefone.

- Estás a dizer que te nasceu uma estrela na cabeça?

- [suspirando] Achas que estou a… mentir ou -? Nasceu mesmo, nasceu-me durante a noite e não sei o que fazer, já fui a um médico. Diz que não a pode tirar com medo de evitar a criação de um buraco negro ou um efeito de supernova.

-E não te disseram mais nada - ? se crescer ou…

- [Girando o bocal do telefone] Se – se crescer? A estrela pode crescer?

- Bom, não sei. Até que ponto é estável uma estrela? A sua massa não muda até ao fim da sua vida, embora exista uma fusão termonuclear de hidrogénio durante todo esse tempo. Não cresce nem diminui. Mas a ti nasceu-te uma estrela na cabeça, cresceu do nada, durante a noite e tudo, Sousa [até a ex-mulher do Sr. Sousa o tratava por Sousa].

- Pois é… Pois é…

- Já experimentaste tocar na estrela com a tua mão?

- Nem pensar! Já basta o calor e – mas sabes que deixei de sentir o meu cabelo? Será que é possível que a estrela esteja ligada directamente ao meu crânio ou – ou ao meu cérebro?

- Sabes, Sousa? Não sei bem como te ajudar no teu problema mas acho que devias fazer duas coisas em relação a essa estrela?

- Ai sim? E quais são essas coisas?

- A primeira é que deves fazer um cash in dessa coisa mesmo à bruta. Vai ao programa da Júlia, arranja um agente, para começar. Na pior das hipóteses, ganhas uns cobres como atracção de circo e sempre te podes despedir do teu trabalho no PBX. Ainda és entrevistado pelo canal Discovery, e tal…

- Está bem, está bem. E qual é a segunda?

- A segunda? – e a ex-mulher do Sr. Sousa fez uma curta pausa dramática – Acho que lhe devias dar um nome.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O homem que Tinha uma Estrela na Cabeça, parte 1

Um dia o Sr. Sousa acordou e percebeu que lhe tinha nascido uma estrela na cabeça.
Sim, lá estava ela, impossível negar! Apercebeu-se da sua presença quando sentiu o cocuruto bastante mais quente do que o habitual. Algo vibrava na sua cabeça com uma cadência esférica. Levantou-se, olhou-se ao espelho na casa de banho, e viu-a, certinha, branca a irradiar uma luz branca e amarela nas suas decadências de energia, com pequenos pontos cinzentos e beges a aflorarem na sua superfície, manchas estelares, bem comuns na verdade, mas o Sr. Sousa não prestou grande atenção às manchas estelares nem a nada
- Carambas, nasceu-me uma estrela na cabeça!
Saiu a correr – não sem antes ter enfiado um gorro (vermelho) na cabeça para esconder a estrelas que brilhava positivamente, cheia de carácter – de casa, sem tomar o pequeno-almoço [o pequeno almoço do Sr. Sousa costuma consistir em: pão com doce de cereja/morango, sumo compal de pêra/chá/limonada, ou cereais com leite quente], e foi logo ao médico mais próximo de sua casa.
- Então diga lá –
- Sôtora, nasceu-me uma estrela na cabeça!
- E que estrela é essa? – perguntou-lhe a médica, olhando para o Sr. Sousa baixando os óculos – é uma estrela normal ou uma estrela de David, de seis pontas?
- Eu – hã? Uma estrela de – o que é que isso interessa?
- Pode ser uma estrela judia – a médica fez o desenho com os dedos no ar de uma estrela de David – Uma – está a perceber? Uma estrelinha judia. De judeus. Assim judia, a estrelinha. O Sr. é judeu?
- Eu não sou judeu! – E o Sr. Sousa tirou o gorro vermelho para não haver mais confusões sobre a natureza do astro de que se falava – é mesmo uma estrela, faz-me imenso calor na cabeça e tudo, ainda pensei ser outra coisa mas não, é mesmo uma estrela!
- Ainda bem, não se pode confiar neles, nessa malta – a Doutora levantou o rabo da secretária e chegou-se à frente para observar melhor a estrela, boca ligeiramente aberta de como quem não está, particularmente, surpreendido com o desconhecimento que lhe é apresentado à frente dos olhos – Pooooois é, é mesmo uma estrela. E não é das judias. Sabe que eu sou uma psiquiatra, Sr. Sousa, não percebo grande coisa de… O Sr. fazia melhor em ir a um dermatologista.
As notícias não foram as melhores: a estrela (“Bem bonita, por sinal, branquinha e toda redonda, e o calor não queima particularmente a quem está perto”, disse-lhe o médico) parecia fazer parte da cabeça do Sr. Sousa, nascendo e crescendo no lugar dos cabelos, e não se arriscava a tirá-la –
- Até porque há o risco de provocarmos um efeito de Nova ou de buraco negro, conforme a estrela liberte toda a energia dentro de si fora do corpo que lhe deu vida ou imploda sobre si com o peso da sua energia convertida em gravidade. Física, homem, física.
- Mas… mas não posso tirá-la? – O Sr. Sousa ficou quase tão branco quanto o corpo celeste a habitar a sua cabeça terrestre: vou ter de ter uma estrela na cabeça a minha vida toda! – Como não posso tirá-la?
- Acha que eu quero que nasça um buraco negro na minha sala e que depois seja necessário evacuarmos o planeta Terra em menos de uma hora? Habitue-se, Sr. Sousa, há deficiências piores.
Mandaram-no para casa com uma receita de Ben-u-ron: “Se tiver dores de cabeça; nunca se sabe”.
Uma estrela na cabeça.
Perfeito, pensou o Sr. Sousa.

A seguir: parte 2.


HOUVE UM HOMEM

A QUEM LHE NASCEU
UMA ESTRELA NA CABEÇA

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

"Her eyes were HD Green"

O meu pai está a dormir. Cruxificado ás ripas da cama desfeita, onde ontem ainda dormia, amarrado com fios eléctricos de várias cores, ver-me-lho sangue, verde e bic a-zul. Na primeira manifestação desse acontecimento havia um cão, um pastor alemão, uma casa com vários andares com panópticos acidentais em lugares distintos, e uma mãe ausente. Desta vez, é real, aqui, eu estou desperto; há música a gritar. )Já o encontrei antes(. Estou cansado demais (par)a observá-lo. O meu pai vai morrer, mas não parece ser, ainda, hoje. O seu silêncio continua a ser permanente. O meu pai nunca fala nestes momentos. As mãos e os pés não estão furados por espigões, só os fios eléctricos o prendem. Tenho sede. Ele dorme, eu estou, infelizmente, com o olhar doente de quem as insónias são o fio condutor da claridade dos dias. Está bem, pai. Não sei porque é que te manifestas assim. Mas a minha mãe ainda está ausente. Esta música que grita não me insulta. Tudo é mito, tudo é conceito e significado. Chega por agora pai. Só quero acordar, acordar de vez, e escrever sobre olhos verdes em alta definição.

Em HD

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A parede branca à minha frente parece cada vez uma tela por pintar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Fugir para a Frente




Sinto a falta do meu amor
Onde está o meu amor
Onde foi o coração do meu amor
Não sei
Não sei


Pergunto ao vento e para dentro
E para fora de mim mesmo
Onde está o meu amor
Acabam-se as canções
Mudam-se os tempos, os dias
São outras as luzes fugidias
As ilusões
E eu não sei
Não sei
Não sei para onde foi


Sinto-o perto
Ou muito longe
Suponho-o e desisto
De o encontrar
Quando olho para certos olhos
Toco em certos rostos
Perscruto sozinho o mar
Mas por
Vezes
Penso que o reencontro
À minha espera, para o agarrar
Mas dão-se as badaladas da realidade
E com saudade ou sem saudade
Aceito sempre
Deixá-lo voar


E onde ficará ele
Para onde irá pousar
Não sei
Não sei
Não sei

terça-feira, 30 de agosto de 2011




Trying too hard.

Ramalah, parte 2

Os deuses. Ráma e Lá, num casulo que funcionava simultaneamente como meio de transporte e avatar de ambos, cobrindo a face do planeta com uma camada translúcida de algo prateado. Sobrepunha-se às nuvens, invadia o céu, ominosamente. E – a religião estava em declínio na Terra. De facto, após "a primeira conquista das estrelas", os homens viraram-se cada vez mais para eles mesmos, cansaram-se de esperar pelo regresso dos deuses. E embora, tal como as escrituras sagradas o dissesem, os deuses um dia chegariam quando os homens mais não acreditassem neles, as palavras não tinham a força dogmática de eras atrás. E também a dualidade da interpretação das coisas punha os homens a questionar: e se fossem eles próprios a procurarem os deuses, Ráma e Lá, chegando até eles como os filhos pródigos que tinham finalmente descoberto a verdadeira unidade do seu propósito: conquistarem-se, prevalecerem, atingirem a felicidade, a superação da fragilidade humana? Seria possível. No declínio religioso num dia normal para regressarem deuses vivos, responsáveis pela própria criação humana, a presença de Ráma e Lá cobriu toda a face do horizonte; um deus em cada hemisfério da Terra. As consequências do primeiro dia da chegada dos deuses abrangeram desde suicídios em massa até a casos de morte súbita por tão grande e inexplicável acontecimento – a emoção forte, pura, é tão devastadora quanto o tédio das certezas absolutas. Os jornais e as restantes agências noticiosas pararam, em grande parte, e qualquer fluxo informativo para os mais simples de espírito perdeu-se na onda de histerismo. Isto porque não havia qualquer tipo de interpretação possível a fazer dos acontecimentos quando se é criado por deuses que deixam nos homens o emblema da sua obra até à essência mais profunda da alma. A chegada dos deuses sentiu-se como uma certeza. Todos os homens o perceberam com a sua vinda; cada um procurou preparar-se para os momentos mais importantes das suas vidas à sua maneira. Excepto a cultura nanita, monoteísta, que ocupava uma grande península num dos 3 continentes. Ao sentirem a chegada dos deuses – dentro dos seus corações, uma verdade – sentiram também que a sua devoção era falsa; poder-se-à concordar que nunca saberemos o que é sentir por provas concretas e visíveis, reais, que o deus a que oramos não existe, mas sim outro, ou outros. A destruição do corpo segue a do espírito. A conversão forçada não acalma a confusão violenta na alma. Suicídios em massa filhos da dor e da revolta, conversões espontâneas, ataques desesperados por parte dos mais fundamentalists ao céu. Dos casulos surgiram as pirâmides invertidas vibraram sozinhas e uniram-se no ar, formando um zigurate nas suas metamorfoses, local onde os deuses desceriam à terra depois de a ela terem chegado. Ninguém dormiu nos primeiros dias. Ninguém, acima de tudo, compreendia o porquê, a razão, ou este agora. O mundo estava demasiado ocupado a finalmente perceber o que era. A presença visível da chegada dos deuses em dois gigantescos ovos translúcidos acoplados na superfície de cada uma das Luas - depois chocando pirâmides invertidas acoplando-se ao firmamento - foi das imagens mais reproduzidas da história da humanidade. Apenas suplantada pelo foco de luz de cada um dos deuses insectóides que desceram, finalmente, uma semana depois à Terra, para se revelarem. Todos os que puderam ir até ao zigurate fizeram-no com fervor. Todos se ajudaram para providenciarem viagens ao maior número de pessoas possível. Os que não puderam comparecer viram todo o acontecimento pela televisão. E não havia mais homens fora deste duplo curso de acções. A comitiva formal para receber os deuses foi, à pressa, composta por líderes religiosos das várias casas e igrejas de Ráma e Lá, chefes de estado dos – poucos – países que ainda existiam, grandes artistas e pensadores, e alguns ricos e notáveis que asseguraram a sua presença estoirando alegre e sofregamente parte das suas fortunas. Tudo por um farrapo de divindade, supor-se-á. Os deuses desceram nesse belo e fulgurante raio duplo de luz, avatares de conceitos vivos que falavam directamente na cabeça das pessoas. A relva cresceu, as flores desabrocharam como por geração espontânea a cada passo que deram até aos chefes das igrejas de Ráma e Lá, que procuravam conter as violentas emoções de se arrastarem num medo louco de tocar no divino. Ficaram-se por um ajoelhar profundo, mas os olhos não se desviaram dos seus corpos.
Os deuses regressaram. Conseguiram, finalmente, chegar ao ponto intelectual de saberem tudo o que era Ráma e tudo o que era Lá; E, assim, voltámos [diziam os deuses para todos os homens da Terra; (isto era mentira)]. Agora podemos ascender juntos; agora, podemos finalmente recordar-vos que a Graça é a verdadeira meta do destino do Homem.
A alegria súbita e confusão posterior que tal declaração desencadeou. Numa só frase, mudou-se o paradigma da evolução. Os homens não deviam, já, procurar uma independência total, libertando-se das amarras dos seus criadores. Só deviam procurar a Graça. Apenas e tão só a Graça. Orem a Ráma (a pai da Lua) e a Lá (pai da outra Lua), e percebam que o vosso destino encaminhou-vos para se conseguirem salvar sem nós, com o meteoro que mandámos para vos destruir. E agora todos podemos descansar. Iremos para as Luas. Deixem-nos orgulhosos. Portem-se bem. Sejam a verdadeira Unidade que falta ao cosmos. E, a seu tempo – tenham paciência! – perceberão qual é o caminho da Graça.
Isto foi o que os deuses disseram - isto foi o que os homens ouviram - antes de o Zigurate se dividir em duas pirâmides invertidas e, cada parte, visível, assentar numa das Luas. E foi, esta, a história do regresso dos Deuses.
Procurem a Graça. Deixem-nos orgulhosos. Façam-nos felizes. Com estes mandamentos o mundo principiou a sua mudança.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Composição de Cores

Primeiro temos o azul; depois do azul temos o castanho, o cinzento claro, o preto. O branco vem depois. O vermelho evidencia-se. O verde, tímido, espreita entre o amarelo e o bege.

Corrompe-se a visão. Dá-se espaço ao púrpura. A doença do roxo, o inocente lilás, o inquisitivo laranja vem atrás. O laranja cai e o amarelo solar reaparece. O vermelho pulsa, em invisibilidade.

Castanho, azul, cinzento, branco.
As cores em cascata.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Pedalling




Tem de haver uma maneira melhor de aprenderes a andar de bicicleta: eu levo-te ás escarpas de Sintra e pode ser que a maresia te faça bem. What say you? Conheces as histórias todas sobre o famoso microclima de Sintra, sim. Peço a carrinha ao meu tio, levamos as binas no porta-bagagens. Armo-me em music nazi, ponho uma mixtape do Mayer Hawthorne e agradeces-me depois. Nove, nove e meia à porta de tua casa? Eu sei que é cedo, mas caramba, a que horas queres lá chegar? Deixamos a carrinha ao pé de uma falésia. Subimos o resto. OU - se quiseres - arranjamos daqueles cestinhos curtidos para pormos à frente do guiador, e levamos comida para passarmos lá o dia. Achas que aguentas, que as tuas pernas aguentam?

Eu digo Sábado. Tudo bem, é só uma boa desculpa para ir ver o mar e sentir aquele vento com partículas de água salgada nos braços, na cara e é só uma boa desculpa para passar um dia contigo, mas hey, momentos são momentos. Deve haver um sítio qualquer entre os chorões onde possamos estender a nossa toalha e comer as nossas bifanas, ou assim. levamos batatas fritas de pacote. E quem diz que é um dia mal passado?

Não dispenso a mixtape, desculpa. Queria mesmo ir lá de carro. Passeamos pela estrada, subimos aquilo tudo, e vamos descendo devagarinho. Eu consigo. Podemos ver coisas que ainda não vimos, talvez - talvez o teu cabelo fuja da tua cara e dance pelo ar de forma diferente, e mesmo que eu não te diga nada, vou olhar cheio de gozo para a dança esquissa do teu cabelo a manhã toda. É esse o tipo de gajo que sou, gosto dessas coisas. O meu vai andar por aí, também, mas não é a mesma coisa (nunca é a mesma coisa). Que me dizes? Andar de Bina, poder ver o teu cabelo a dançar de maneiras novas, irmos trocando piadas enquanto nos esfalfamos a subir a serra e, a meio, talvez me rogues pragas pelo esforço que fizeste - mas é só assim que se aprende mesmo, mesmo a andar.

E também porque nunca o fizemos. Podemos ver o mar, as nossas faces, o tempo e o fim de semana a fugirem mais devagarinho. Podemos sentir que estamos a voltar para uma Lisboa mais deserta de alma e sons verdadeiros, quando voltarmos. Podemos adormecer mais rapidamente, depois de desistirmos lentamente de mais beijos e abraços.

Volto a pôr a mixtape a tocar no regresso, se quiseres. De qualquer, modo, vai acabar antes de chegarmos.

Acho que conseguimos conviver com o silêncio.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011



Onde está a certeza de uma tristeza que terá fim?

Onde está o doce sentimento de indiferença perante a partida do passado?

Lembro-me da primeira casa onde morei. Contrastava com a minha falta de conhecimento perante o difícil da vida. Não conhecia nada. Não conhecia a perda nem a frustração. Só os desenhos animados, e o dia que vinha a seguir ao outro.

Era uma tela em branco, na praceta da Damaia.

Não me lembro da chuva quando era mais novo. Pelo menos, não quando viva na Damaia.

Lembro-me de uma varanda alta, onde não conseguia espreitar para nada, só para a janela do terceiro andar do meu vizinho, no prédio em frente.

Gritava por ele André!, André!, e muitas mais vezes que ele aparecia a avó à janela a dar-me conta de onde ele andava. Descíamos e íamos brincar. Não me lembro ao que brincávamos os dois.

O meu pai pegava em mim e mostrava-me um quintal lá em baixo, que fazia parte do nosso prédio. Raras vezes lá entrei. Não me lembro.

Na Damaia não chovia, posso afiançar com alguma certeza. Quando me virava para voltar para casa, vinha um chão de madeira preta a saudar-me, com um sofá azul à direita onde, dizia-me a minha mãe, eu adormecia a olhar para as suas rendas brancas.

Era ainda demasiado pequeno. Ainda não tinha barba. Ainda não tinha olheiras sob os meus olhos azuis. Ainda não conhecera o prazer de fazer amor, a calma despreocupada a meio de uma viagem, os jantares nas tascas com os amigos onde as piadas se ouvem mais depressa do que se bebem as cervejas. E depois vamos todos lá para fora, Quem é que quer ir fumar um cigarro comigo enquanto não vem a conta?

Ainda não pegava no meu carro para ir ver o mar.

O meu pai primeiro deixava-me andar de triciclo na varanda. Depois, na rua. O chão, a estrada da praceta tinhas pedrinhas pretas e uma garagem permanentemente fechada mesmo lá em cima. as rodas de plástico do meu triciclo faziam barulho no chão. Mal andava. Havia outros rapazes. Mas não eram meus amigos, eram amigos do André. Jogávamos à bola, sem saber ainda que não sabia jogar à bola. Com que pé remataria?

Passo-te as mãos pelo corpo. Os meus pais estão fora. Faço isto quase pela primeira vez. A faculdade, a vida adulta, a escrita, as carreiras, os problemas, tudo pode esperar. As onze fazem-se quase a uma. Ponho um cd de trail of dead na aparelhagem. Volto para a cama a rir-me. Esqueço-me de desejar a repetição do momento. Esqueço-me de perceber que quando se é feliz é fácil, é tudo fácil. É tudo fácil demais. É fácil pensar que é assim porque é assim.

E a praceta, onde a deixei. Um dia voltei lá de carro. Fui almoçar com o meu pai ao restaurante de um amigo dele; lá perto. E quis regressar. O jardim decrépito (outro jardim) à direita, como quem nela entra, estava ao abandono. Vejo várias motas estacionadas numa praceta que dantes não tinha motas. Pessoas a conversar. O meu prédio, a minha casa, olha para mim em silêncio e quase me pergunta o que é que estou ali a fazer. Faço inversão de marcha depressa demais. Vou-me embora. Não volto lá mais.

Volto para a minha outra casa. Estou a preparar a mudança porque vou morar sozinho, com um amigo. A namorada apoia. Tudo se conjuga. A minha perna esquerda é só a minha perna esquerda. Nessa noite vou tomar café junto ao mar.

Olho para a noite, e cada onda que rebenta é uma memória.

Abraço-te/Beijo-te. Sou feliz. É fácil, penso.

A minha perna esquerda concordava.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ramalah, parte 1

Ramalah

A sociedade era uma sociedade como a nossa, de pessoas e vidas separadas por zonas mais avançadas do que outras divergindo as paisagens meramente em alguma fauna, flora, e arquitectura nas zonas mais antigas ou "históricas"; as pessoas tinham os seus empregos, os seuspassatempos, a sua cultura; as suas religiões, entroncando em denominadores comuns de origem da existência, e da vida, milénios antes. Há algumas décadas atrás tinha-se conseguido, por esforços conjuntos de cada região e das três principais ilhas do globo, colonizar-se um dos dois satélites existentes que, perto da atmosfera da Terra, giravam envoltos numa fina névoa que a generalidade do folclore chamava a estrada dos deuses. Um mais verde, com a superfície maltratada pela colisão de alguns asteróides, e outro mais púrpura, de superfície mais limpa, que o povo entendia ter uma natureza mais feminina, e era este que tinha sido colonizado há alguns anos atrás por uma equipa de astronautas, cientistas, e só agora se estavam a considerar os efeitos da gravidade heterogénea - que oscilava consoante a passagem da Lua verde por dentro da própria órbita da Lua púrpura - na primeira geração de alguns meninos e meninas que nasciam nas bases científicas, gerados no modo tradicional entre os cientistas homens e mulheres que Habitavam - os seus humores oscilantes e as suas alturas ultrapassando os dois metros pela puberdade, devido à fraca gravidade.

Era uma sociedade que se preparava para entrar "no futuro", como assim o sentia, e estava feliz porque a idade contemporânea não tinha, ainda, destruído a civilização engedrando, subconscientemente, o seu auto-devoramento. Há meros dois séculos atrás o destino destes homens e mulheres que viviam neste planeta com duas luas e caminhavam bípedes e falavam algumas línguas motivadas pelo afastamento das três principais ilhas pelo globo que geram, como se sabe, divergências na cultura, na forma de estar e até em traços físicos, estéticos e práticos consoante o clima e a geografia, fora pela primeira vez traçado quando físicos e cientistas detectaram um largo asteróide em colisão com a Terra. Noutros tempos, mero meio século atrás, o tamanho do asteróide teria sido suficiente para obliterar grande parte da vida pluri-celular. Mas nesse dia as nações do planeta uniram-se para descortinar a melhor maneira de destruir o asteróide ou desviá-lo da sua rota. O plano resultou, com o lançamento de uma ogiva nuclear que detonou perto da superfície do corpo celeste, tendo levado o mesmo a quebrar-se em dois e uma das metades ainda hoje, provavelmente, se encontra a navegar pelo espaço; a outra seguiu um rumo inesperado e chocou contra a Lua púrpura, provocando uma chuva de meteoros e estrelas cadentes que não teve impacto de maior. O que deixou no próprio satélite, porém, teve muito mais impacto para a população humana desse planeta: uma cratera, grande, observável a olho nú, numa Lua que, com a outra, ocupava cerca de um décimo do céu visível, excepto quando a órbita da Lua púrpura a punha do lado oposto da Lua verde, escondendo-a, assinalando com isto o ano novo para todos na Terra. Uma cratera que, perfeitamente circular com os seus laivos verticais desde o ponto de impacto até ao seu horizonte de eventos, foi entendida por todos como o sinal derradeiro de que, agora, dominava-se verdadeiramente o próprio destino. Um sinal de que o presente seria a partir daí esse momento, e o passado, ou a ideia do passado, estaria defenitivamente deixada para trás. O que viria depois só poderia ser entendido, no depois desse próprio depois, como um futuro anterior. O Homem vira-se, de repente, na necessidade de não mais correr com o intuito de fugir. Agora era o dono do seu próprio destino.

E assim a sociedade evoluiu e prosperou mais, com o objectivo, agora comum, de evoluir cada vez mais e mais, procurando esquecer as quezílias de natureza económica que durante tanto tempo tinham dominado a vida dos seus antepassados e trisavós e bisavós, ecos de um instinto de sobrevivência do mais forte cada vez mais desconexo com o seu verdadeiro propósito. Mas não nos enganemos: não eram superiores a nós, eram apenas pessoas que tinham, finalmente, descoberto o seu verdadeiro propósito enquanto espécie, e decidiram fazer disso a meta comum das suas existências. Estavam preparadas para o futuro.

Mas eis que, um dia, o impossível aconteceu. No passado, estas pessoas tinham tido as suas vindas de deuses e os seus profetas; dizia-se até que as montanhas de Ráma e Lá (estruturas rochosas fazendo lembrar pirâmides invertidas que os mais brilhantes engenheiros não conseguiam compreender, factualmente, limitando-se às conjecturas, como se mantinham ainda em pé ou como tinham sido escavadas) tinham sido construídas não por uma antiga civilização mas sim a mando directos dos dois deuses: o Tudo e o Nada, a sua contraparte, pois para esta civilização tudo tinha uma dualidade e nada poderia ser verdadeiramente uno: existe em tudo o contrário mesmo no interior de algo singular; não existia, sequer, nenhum número que indicasse a unidade na matemática deste povo, pois nada é meramente inteiro e só. Os seus deuses Ráma e Lá, de acordo com as profecias, criaram a dualidade una pela primeira vez no universo, manifestações dos seus próprios contrários (na verdade, um e outro), no planeta onde os homens habitavam: os homens. Ráma e Lá criaram o homem - e no seu contrário de dualidade criaram também a mulher, ao mesmo tempo, e ainda no presente homens e mulheres não tinham encontrado a definitiva resposta sobre quem tinha sido feito à imagem e semelhança da dualidade una de cada um. Quando os homens aprenderam que a única unidade eram eles, por terem em si a chama sagrada dos criadores do universo, Ráma e Lá partiram; Deixaram as duas Luas, como recordação da sua passagem pela Terra, tendo também criado e instruídos os primeiros sacerdotes - homens por eles escolhidos para perpetuarem os seus ensinamentos - para redigirem as palavras sagradas em todas as superfícies de todas as maneiras possíveis; e para tentarem descobrir em que coisas era Ráma e em que coisas era Lá; se o homem, se a mulher; quem tinha criado o quê; o que pertencia verdadeiramente a quem. Dizia-se que, quando a raça humana finalmente o descobrisse, os deuses voltariam e, finalmente, dariam a conhecer aos homens as chaves para ultrapassarem as barreiras físicas dos seus corpos e criarem novas dualidades e, quando morressem, finalmente encontrassem a verdadeira Unidade. Mas tinham-sepassado já alguns milénios; os profetas da vinda dos deuses eram cada vez menos, principalmente no último milénio, e contestava-se já a veracidade histórica dos seus feitos, dos seus milagres. Uma ateísmo mais pragmático, potenciado também pela destruição do asteróide e evolução e revolução mentais humanas, bem como várias variantes de agnosticismo e espiritualismo afastados de ideias religiosas pré-concebidas, floresciam. a sociedade avançava, e a religião começava naturalmente a ser posta em causa, e sim, era belo vê-lo a evoluir tendo conseguindo vencer o ponto de ruptura da perenidade da sua existência. Mas esse impossível acontecera num belo dia, num normal e simples dia de Sol nalguns lados e de chuva noutros, em que os deuses regressaram.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011


É como ter-me esquecido das chaves em casa do meu pai, o telemóvel não ter bateria, e ser meia noite e meia.
Depois também é como trepar ao primeiro andar usando os caixotes do lixo. E passar a ter mais medo dos assaltos.

E depois esquecer-me do telemóvel no carro.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Histórias curtas, 3

Luísa emocionou-se aos quinze anos quando teve a sua primeira epifania. Uma noite na rua, em que tudo se conjugou para que a atingisse em cheio com a força que só as epifanias conseguem atingir-nos. A partir daí, entrou simbolicamente na luta pela adolescência e pelo seu crescimento. Com a primeira epifania abriram-se as portas para a descoberta, pelo querer ser melhor à sua maneira, para o peculiar sofrimento pelo desconhecido, pelas confusões que advêm da vida. Cresceu, teve outras epifanias. Cada uma chegava sem avisar. Por vezes procurava-as. Via-as a desaparecer numa esquina ao longe, quando julgava que tudo, de novo, se conjugava para aquele dia ser diferente. Começava a perceber o que as causava. Mas ainda assim cada epifania vinha sem avisar, porque são assim mesmo as epifanias. Luísa deixou de as procurar. Decidiu aceitá-las quando viessem, como tudo o resto na vida. Sorriu e chorou. Foi vivendo, ainda é nova.

A isto chama-se crescer.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Toda a Gente a Fugir para a Frente.



O faroleiro lançava as suas redes ao mar.

Lançava as redes ao mar. Dando-lhes os gestos precisos, soltos, cumprimentados pelos borrifos de água das ondas encapeladas contra a sua roupa, contra o seu corpo. Contra a sua face de rugas duras.

Lançava e dava as redes ao mar contra a imensidão do céu verde e cheio de nuvens; contra a areia molhada, fria, a enrolar-se nos seus pés nus. Nas suas calças arregaçadas.

Nas mãos gretadas e vincadas pelos sulcos grotescos das dificuldades e dos trabalhos.

Contra os olhos semicerrados, contra o ar bondoso e compenetrado, contra a velhice e contra a solidão. Alicerces do farol.

Contra a tempestade que o crepúsculo traria antes de cair, devagarinho, nos braços da noite.

O faroleiro lançava as redes ao mar. Gostava de pescar.

Que fazes tu, faroleiro, que não estás no farol?, perguntou um menino que caminhava pela praia.

Estou a lançar estas redes ao mar para pescar peixe, respondeu-lhe o faroleiro. E já liguei o meu farol.

O vento virava-se e rebolava-se como as crianças traquinas; subia, descia, estava em toda a parte, brincava na rebentação das ondas. As redes eram recolhidas e não traziam nenhum peixe. O faroleiro foi tentando.

E porque pescas?

As nuvens engrossavam, as luzes nas casas, ao fundo, longe, longe; acendiam-se. Corriam-se os cortinados. Fechavam-se as janelas.

Pesco porque tenho de pescar. E porque gosto de pescar. Mesmo se não vier nenhum peixe. Vou pescando. Na esperança de receber alguma coisa do mar.

Mas pescador

E o menino foi-se embora. Brincar para fora da praia. Para outro lugar. O faroleiro sentia os seus suspiros murmurados, quando pegou nas redes, antes de novamente as atirar.

E foi aí que percebeu que estava velho.

No limite da tempestade.

Velho demais para voltar a qualquer antes, a qualquer atrás.

Então decidiu apagar para sempre a luz do seu farol.

E nunca mais contemplar o mar.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Uma astuta observação ao álbum: Source Tags and Codes, ...The Trail of Dead, feito de memória ao som de The Weeknd - House of Balloons [1]

O álbum Source Tags and Codes é um sólido, muito bom álbum da banda de Austin, Texas, considerado pelos conhecedores - e "fãs" (existira mesmo ainda uma definição unitária sobre o que um "fã" é? - da banda como a sua obra mais conseguida. Uma Tour de Force de um peculiar rock que não leva os prefixos de punk, hard, prog, ou indie com ele. É uma viagem - no sentido em que há uma progressão ambiental desde o início até ao seu apoteótico fim - que pode arrebatar os menos cínicos (e, enfim, sempre só esses, quando sempre se pede um esforço para apreciação de qualquer tipo de beleza).

E sem mais delongas, o álbum canção a canção:

1- Invocation abre o álbum, uma intro calma com piano, baixo, instrumental, não interessa. Alonga-se na condição de intro e proporciona o primeiro momento de beleza e calma na entrada do álbum. Cria também, automaticamente, um ambiente. Passamos para 2 - It Was There That I Saw You, que abre a rebentar numa batida não propriamente rápida, com a voz de Conrad - aguda, estranha, quase estridente - grita as primeiras palavras. Está a ser um álbum rock, isto, atípico pela intro mas até aqui nada de mais, até que - um gesto com tomates seguros. A canção morre a meio e transmuta-se, estes rapazes querem fazer algo diferente. Fica bem, também. Passamos para a 3- Another Morning Stoner, uma dos pontos altos do álbum. E está tudo lá, de verdade, quando se é gritado "What is forgiveness? It's just a dream! What is forgiveness? It's everything" bem no clímax da canção. Fica connosco. Passa para 4- Baudelarie, carefree rock song com poder, força, uma bridge não anunciada antes de 5- Homage. Força, poder, rock. Passemos para a segunda parte com 6- How Near How Far. Uma pérola áspera, para todos os efeitos, num momento em que o tom de rock forte, bem próprio, de voz singular já se impregnou em nós e sabemos o que podemos esperar ainda. 7- Life is Elsewhere. A primeira pausa e o primeiro corte do álbum. E passamos para a segunda parte com 8- Hearth in The Hand of the Matter, mais soturna, mais adulta, tal como 9- Monsoon. Temos a 10- Days of Being Wild e 11- Relative Ways a entrarem no crepúculo do álbum como bonitas, profundas canções, encorpadas mas com traços de candura. Estes gajos levam-se a sério e fizeram algo em que acreditam. Nós também, depois de lhes termo dado a difícil chance. Tudo termina com duas últimas notas de graça. A epifania quase constante que é ouvir 12- After The Laughter passando para o épico, delicioso fim com letra a ser cantada bem alto, ainda que cá dentro de 13- Source Tags and Codes.

Fim do álbum.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

[Remix]; _______

Ouvidos.
E boca.
Peito e mãos.
Olhos - mais intrusos
Que conhecidos nesta
nova escuridão
Neste novo
crepúsculo dos sentidos sob o signo
do calor e do
Sol
E dos livros


E de um tempo de hibernação parricida
Sobre o nosso próprio sentimento
E
assim
vai-se

vai
vai


Se vejo-me
curto
;[]pelo que ainda [É]
há para
escrever





quinta-feira, 21 de julho de 2011

Magalhães

"É para cima, é para baixo; é a quarta dimensão."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Letra de Canção: Estrangeiro

Chego e
Estrangeiro
És um estrangeiro
Não são as roupas
ou as bocas nem essa
touca isso é tudo coisa pouca
És um estrangeiro
Age como tal
Recebo os conselhos e improviso
Safo-me como posso e nunca aviso
Que só quero ser igual


É que
A alma também tem cores
disse-me talvez uma miúda
Nova e estranha como eu
Nunca lhe perguntei as minhas
E a noite ficou a meio
E bebi um bocado de permeio
Perdi assim a identidade
e parte da saudade
de só querer ter a minha alma
ancorada à realidade

Mas não vale a pena
Sou um estrangeiro sem perdão
Estou bem firme neste mundo
A observar com um olhar confuso
Os dias que passam
E os que não

Entre a casa e a imaginação
Continuo a saltar de festa em festa
E aos olhares confusos, tento ser preciso:
Não quero ser esquisito
Mas até acho bonito
Não estar triste e ser bem lúcido.

E se me perguntam o nome
revelando algum interesse
digo logo com cuidado
e sua ponta de finesse
O do meio?
é Estrangeiro

Não vale a pena
Sou um estrangeiro sem perdão
Estou bem firme neste mundo
A observar com um olhar confuso
Os dias que passam
E os que não

Mas ainda tenho alguma coisa
Ajudo sempre os meus pais a lavar a loiça
E sou sempre bem educado
com o caixa do supermercado


A ex dizia que eu tinha graça
Entendia o meu sorriso
As palavras percebiam-se
E sentia-me menos estranho
Nos seus olhos, vi um brilho
O estrangeiro
Era humano
E chegara ao seu destino.


Talvez valha a pena
Ser um estrangeiro sem perdão
E estou bem solto deste mundo
Mas de vez em quando percebo tudo
com um gesto
ou uma canção.

sábado, 16 de julho de 2011

Dentro e Fora


Tempos estranhos.
Tempos com potencial.
Tempos tristes, tempos felizes.
Curar o coração, teimar em deixar aberto.
Tempos de fechar o coração.
Tempos em que as coisas falam connosco atrás de uma parede de reverb.
E não entendemos os - tempos de mudanças.
De silêncios.
De canções, de momentos singulares.
De paz fugidia, de paz bonita.
Tempos para reflectir sobre os reflexos no espelho.
Tempos de despedidas. Sem querer largar a mão.
Tempos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Hum.

O Universo deve estar a tentar dizer-me qualquer coisa.

Provavelmente deve ser algo do género "RENHÉEEE JOÃO AAAGMHUAFASFADAFS!".

tá, já ouvi.

sábado, 9 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Oh, onde ando eu?


Ando a preparar-me.

smile:


=)

.

sábado, 11 de junho de 2011

Contos

A Quinta do Sr. Vyclac

Na quinta do Sr. Vyclac as portas abriam-se e fechavam-se com explosões e oceanos profundos atrás delas, e as portas eram muitas. A noite trazia consigo a aurora boreal que encharcava de estrelas flutuantes toda a casa e os campos adjacentes;, passavam, tilintando o seu brilho pelas ervas altas. No Verão, o vento e o calor secavam até à morte, até à sonolência, tudo o que existisse, até que a terra se desvanecesse até às pedras embebidas em pó por debaixo delas, e a casa desfalecesse, em pé, clamando de si ondas de calor das suas paredes brancas. No Outono as portas abriam-se e fechavam-se mais vezes, mais descontrolada e desenfreadamente, e as árvores do outro lado deixavam as folhas cair, e os animais entravam; as árvores eram submergidas pelos oceanos. As visões tornavam-se mais autênticas, mais nefastas. O Sr. Vyclac era o fantasma que passava por uma porta e outra, pelos corredores, intangível, pertença da quinta e a quinta parte dele; a tudo era indolor;. Nunca estóico. A Casa erguia-se das suas fundações e lutava contra a entrada das coisas descontroladas que percorriam a casa e a quinta. Passava-se a estação com uma outra vida, cheia da somas dessas vidas. No Inverno, caía a neve e os arremedos de silêncio, soluços breves. De silêncio. Os dias transmutavam-se em imobilização e quietude. Dentro da casa, uma ausência de formas. De portas, a baterem em explosões. O fantasma, cansado, do Sr. Vyclac, ía para o meio dos campos da quinta. E adormecia. Um dormir sem sonhos, uma prece respondida ao fim de tantos anos, de tantas eras. Um sono, sem sonhos. Um simples dormir. Dormia nos campos vastos, silenciosos. Estéreis. A neve caía nos campos. E o fantasma do Sr. Vyclac dormia. Adormecia, cansado, e sem vontade de permanecer morto. Em cima da neve. No chão. Por entre as ervas. Deixando que a neve o afagasse, e lhe caísse em cima, durante a noite. Com a aurora boreal, a inundar de luz verde a noite brilhante, por baixo da quinta deserta.

Depois vinha a Primavera, e que importava isso.

Aquela quinta estava amaldiçoada, e não era só pela presença do Sr. Vyclac. Que, triste, não o desejava. Não era, sequer, pela presença do seu próprio dono. Era simplesmente assim. Já o era muito antes do Sr. Vyclac ser um fantasma, e para sempre seria assim, até que a quinta fosse arrancada desta terra, pelos ventos impiedosos, de um mundo imperdoável. Por baixo do solo tinha que se movimentar uma força revoltada e tenaz, revoltada e tenaz o suficiente para se fazer permanecer a si própria. Para a eternidade, até que se esgotasse na raiva de si mesma, e destruísse a quinta. E acabasse com tudo, no falhanço do destino que para si própria criara. Tudo manifestar. Fazer com que as portas batessem. Em gritos de selvajaria, tentando irromper de dentro de si mesma, para a vida. Fazendo com que, finalmente, uma das portas a deixasse sair. Amar a quinta do Sr. Vyclac para poder fazê-lo: irromper em Vida. Quando isso acontecesse, o fantasma do Sr. Vyclac pereceria. Finalmente.

Acima do solo, porém, a história continuava a ser outra.

As portas abriam-se.

Abriam-se, descontroladas, e à quinta chegavam cascatas e florestas. Coisas perdidas, ideias de longevidade e rebeldia, gritos. Nomes murmurados e repetidos, visões do futuro saturadas de sons, ruídos estrangeiros, maquinais. Desconhecidos ás próprias portas, à quinta do Sr. Vyclac e ao seu fantasma. Espirais de dúvidas. Homens e mulheres já sem nome que chegavam a passar pelas portas, exaustos, e que depois eram comidos pela fauna monstruosa, ou que voltavam, depois, a desaparecer. Nunca permaneciam ali. Os animais e os perigos, as portas que se abriam em explosões de vida ou de lugares, de coisas, tudo atentava contra a vida. Lava, candelabros. O cheiro a uma barraca de cachorros quentes numa cidade pós-industrializada, adornada, naquele momento, por uma chuva pontual, estéril, cinzenta.

E perguntas. Perguntas que irrompiam pelas portas e eram recebidas pelas paredes brancas da casa, ouvintes atentas. Pela sua mobília suspensa no ar. Inundada pelas aparições de água e de orações que também passavam pelas portas, e deslizavam no ar. Com Graça. Pelo fantasma do Sr. Vyclac. Que desaparecia.

Assim passavam as estações.