segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Semana e Meia

Se eu for falar de promessas, tenho que ignorar os cumes improváveis das cidades, as horas circulares e as vozes dos amigos que se intrometem e nos puxam para a realidade, dizendo que lhes somos queridos; fugir é difícil. Tenho que ignorar a penumbra pesada debaixo das minhas pálpebras e a luz irresistível que nos convida a viver e a nos perdermos na espuma nos dias, sim tenho, encontrar o ritmo é voar alto, e tenho sonhado tanto… essa promessa cumpri. Pessoas e pessoas e sítios e lugares desconhecidos e voo, todas as noites – quase todas as noites voo.
Um tipo pensa: não posso ser má pessoa se sonho que voo tanto. Se as mulheres dos meus sonhos têm personalidades e problemas e mesmo que as ignore para voar dali para fora ou mudar a tela quadrimensional eu sei que elas têm nomes e me perguntam coisas e falam comigo quando me entrego à possibilidade alucinada do sexo. E as casas continuam a ser o meu fascínio; as paredes impraticavelmente altas, as portas esfíngicas, maciças, abrindo-se para revelarem céus esculpidos em interiores polidos e estrangeiros.
Ou outras casas labirínticas com alcatifas e estantes e livros, preenchidas com tudo por todo o lado, armários e aparadores e gavetas, gavetas, gavetas sem fim com tudo o que é possível lá dentro, papéis e cartas e fotografias, dedais e notas velhas e absoletas, navalhas e e medalhas, rendas e panos e papéis, papéis e mais coisas de todos o tipo em corredores apertados, janelas com quadrados de luz branca, o começos de montes verdes sem nome lá fora. Cenários. Falando de promessas, são sonhos que se escapam e que se fodam. Vou sempre sonhando, pelo menos até à chuva parar. Uma promessa arde na boca e agita-se como um badalo ameaçando rasgar o céu. Mas nunca acontece nada até o nosso peito se apagar e ficar preto cá dentro, e já está – de volta ao presente. A festa vai ser boa, as imagens vão materializar-se com outros nomes, e vou-me esquecer do tempo que demorou a percorrer o caminho todo até a um agora inesperado, e depois? Voltarei a sonhar que voo?
Quem nunca sonhou que voa não pode ser um artista.
Ou quem nunca sonhou com a transformação de algo sujo numa qualquer questão bastante pertinente.


Talvez a conclusão a retirar-se disto tudo é que com a ficção posso eu bem. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Assunto: Ref. Advg.Exec

Prezados Senhores,

Após ter verificado vosso anúncio com oferta de emprego, com a referência  # 1576984026, e por considerar que reúno as condições necessárias que são por V. Exas. enumeradas, apresento em anexo - para vossa consideração - o meu Curriculum Vitae.

Incluo ainda, em anexo, uma tira de banda desenhada do Doutor Destino.

Na expectativa de ter notícias e resposta de V. Exas., apresento os meus melhores cumprimentos,




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

R

                Verbo: Correr para os horizontes, identificar os problemas, e quando os nomes faltarem olhar apenas para trás, fugir na direcção oposta. Ignorar os sorrisos geométricos e os suspirares sábios dos
                Interiores, programar um mapa, seguir o trilho das raposas em fatos. Perseguir,
                Perseguir e perseguir até se largar o desejo das luzes triunfantes das
janelas. E depois, claro, esperar pelo fim,
                Pela meta no último quarto ou depois do limite do portão mesmo após as estufas, as mansardas e os jardins
                Nome:, mas antes persistem os quartos e as áreas com r-riscos de e as salas e agora as janelas. Mais ainda. Também outros, também
                Espelhos com personalidades complicadas e mentiras nos tecidos e novos
                Labirintos nas mobílias, velocidades (de isto é feito):
Dúvida / Homem

                E de outras coisas o edifício

Plus

Quando tudo acabar eu acabo. Quando
O sono for mais forte, eu acabo. Quando os prédios deixarem de ser minaretes para os deuses do labirinto, quando o labirinto deixar de ser um labirinto, as sequências mutáveis, orgânicas, crescerem e revirarem como plástico ou – e – o chão ser liso como o vidro, outra coisa não pode senão ser a conclusão – persisto. A tela em branco, o Sol suspenso e demasiado silencioso para a tranquilidade se procurar no sono, eu posso imaginar.
O fim do eco.
Dos sinos.
Das cores das magias –
Quando tudo acabar. SeTudo acabar –
Eu persisto, eu insisto, ver o sagrado do depois.
Até ao

Sono.

Seven

A neve girava e rodopiava como cinzas na lareira e as paredes estavam húmidas, tu eras um anjo de olhos macerados e os teus suspiros incendiaram a sala; eu
                Estava inerte, estava
                Inerte
                Confluências de fios tapavam as janelas e o frio badalava impiedosamente sobre a pele e as roupas moles; houve luz. Houve uma preponderância do desejo, e um nome em forma de questão, o teu, e foste-te.
                Poetizei, imaginei, a casa engoliu-se numa pirâmide.
                Os olhos, presos nos montes, escravos dos céus, escorrendo pelos caminhos e ruas de pedra, diluindo-se na lama e na erva, incógnitos como a chuva – não se falou mais disto. Abandonou-se mais um país.

As fronteiras éter.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Personalize funny videos at Bombay TV by Graphéine - Agence com

terça-feira, 26 de novembro de 2013


SOMA

Bom eu estava ali como quem não quer nada a escolher a canção para ouvir a seguir, esperando o metro, e de repente passou por ali mesmo ou seja mesmo à minha frente, passou Portugal e eu muito surpreendido disse-lhe tipo “Portugal!”, saiu-me assim não sei e ele vira-se e disse-me naquela meio chateado até, estás a ver como se estivesse bastante ocupado O que é que queres e eu Nada não quero nada quer dizer, queria perguntar-lhe como anda, ninguém o vê há anos ninguém sabe de si nem como tem passado ou se vai um dia voltar, e vira-se ele e sabes o que me responde?, “Essa é boa. Nem há-de ser agora ó rapazeco, deixa-me cá com a minha vida” e entrou no metro sem dizer água vai. E pronto, voltei a perder Portugal. Parece-me mais gordo do que o que devia estar, pelas histórias que dele contam. E deixou crescer a barba. Mas isso é normal, acho eu, toda a gente agora anda a deixar crescer a barba.

Chumbalanumba, Xunibarumi, Xunimacaluni: estas e outras onomatopeias encontram-se num blog perto de si.


MÍSSIL SUPERSÓNICO DE DESTRUIÇÃO – Melhor do que sexo para quem gosta de ler coisas diferentes.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

NO BAR, PARTE 2 – CAMINHADA PELOS SOCALCOS DA ACÇÃO


(Ele conta-lhe a história ou as histórias do leopardo)

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

sábado, 9 de novembro de 2013


Foto de casamento do Luke Cage e Jessica Jones. Acho que o Peter é o que está à esquerda da Jessica.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Problem Areas


Todos os dias tinha de escolher entre enfrentar as sombras ou os reflexos.
E todos os dias podia ouvir as vozes das crianças, cada vez mais alto, a dizer para escolher um quarto ou outro, e falavam todas umas por cima das outras, mas nunca as via, nunca as via porque estavam do outro lado das paredes. Fora do seu quarto, duas realidades seriam, uma delas, a verdadeira, mas ele não podia saber qual e todos os dias tinha de escolher qual era a realidade certa, e a escolha errada matá-lo-ia certamente. No seu quarto, quatro paredes, duas portas, e as vozes das crianças a exortá-lo a escolher uma das portas, não não essa aquela esquece o que foi dito ouve-me esta é o problema das sombras é não saberes eu não foge foge para a porta certa pára não escolhe bem não escolhas os espelhos não ouças as mentiras não te vão devorar porque tu sabes que tu és tu és não vás para a – espera; não essa não não acredites neles não vai para as sombras tu não és feito de luz e assim sucessivamente, até ser obrigado a escolher ou a ter as vozes a aumentarem de intensidade, o desespero e a urgência nos seus tons. Quantas crianças eram – pareciam crianças, pensava – não sabia. Não sabia nada sobre si, não sabia o seu sexo. Tinha quatro membros, dois braços, duas pernas, nem mais um traço na pele, liso. Ele era ele, apenas. Percebia que, provavelmente, tinha de existir. Não podia ser um erro perceber de forma errada a percepção de si próprio, real. Ou assim achava. E então para não temer que as portas não se abrissem mais, como as vozes das crianças já tinham dado a entender por entre os seus discursos intermináveis e desconexos, escolhia uma porta, tentava raciocinar e perceber e tomava uma decisão todos os dias, para não morrer, mas enfrentando a morte ao fazer a escolha. E se for hoje?
No quarto dos espelhos o seu reflexo estava em todos os lados repetido, pelo menos, até aos limites da sua percepção. E os reflexos estavam vivos, e todos eram autónomos a si. Vencê-los poderia ser a prova de que ele – e dizemos ele enquanto entidade assexuada, que não sabia quem ou como era, de onde vinha e que era – seria mais real – ou o real – de verdade, e pudesse finalmente estilhaçar todos os espelhos e obliterar a sala; mas nada lhe dizia que os reflexos não poderiam ser também, eles próprios, verdadeiros, ou tão verdadeiros quanto ele, e todos os dias entrarem também pela mesma porta que também estava – ou estaria? – reflectida em cada espelho. Não havia forma de saber. Calculava ser real porque se sentia real, mas não poderia ser ao invés, um reflexo como os outros? Ao início, o espanto tomava conta de si sempre que entrava no quarto dos reflexos e tentava, em vão, procurar perceber o que lhe diziam, mas não conseguia ouvir o que era dito, ou gritado, ou sussurrado, do outro lado dos espelhos. As suas feições podiam ser de raiva ou medo, ou revelarem uma enorme, e permanente, confusão – como ele quando percebia estar a olhar, perdido, para todas aquelas suas cópias a desafiarem a sua realidade e a reclamarem, para si, o estatuto de ali estarem – do seu lado dos espelhos. E procurava que ninguém saltasse dos espelhos e evitava tocar nos espelhos porque tocar nos espelhos estilhaçá-los-ia, diluiria o seu quarto com os reflexos, mas era difícil. Do outro lado dos espelhos, por vezes mãos e braços estendidos pareciam implorar-lhe que lhes tocasse. Nunca o fez. Passar a noite no quarto dos reflexos era apenas possível se conseguisse manter a sanidade e sobreviver ao assalto da sua própria definição de realidade. Porque quanto mais a pusesse em causa, mais os espelhos se rachavam. E cada dia e noite eram intermináveis, com os braços estendidos e os gritos mudos de infinitos reflexos autónomos seus a planearem, estava cada vez mais certo, a sua morte, a sua cessação naquele lugar. Quando a porta se abria novamente, sem qualquer aviso ele, esgotado, voltava ao quarto das paredes, das duas portas, das vozes das crianças.
E por vezes voltava ao quarto dos reflexos, convencido de que o segredo para sair dali, e perceber quem era, estava naquele quarto, naquele quarto de reflexos.
Mas, outras vezes, entendia que nada poderia estar ali a não ser a tentação suprema: fazê-lo convencer-se de que não existia.
Nesses momentos, decidia que a próxima porta que abriria seria a das sombras.
Mas nem por isso era o quarto das sombras mais permissivo, ou claro no tocante a respostas.
Tudo era penumbra. As paredes diluíam-se na escuridão. Quanto mais andasse, quanto mais corresse, quanto mais se quisesse perder, quando olhava para trás a porta estava sempre à mesma distância onde a deixara. Correr virado para a porta fazia o quarto inclinar-se, de certa forma, virar a porta gradualmente para o tecto, e estava certo que se caísse, ali, no chão cada vez mais vertical, cairia para sempre e nunca regressaria, nunca conseguiria trepar de volta até à porta. E a porta abrir-se-ia, esperando que ele voltasse, e se ele nunca conseguisse voltar – e se a porta se fechasse para sempre – e se ele caísse sem fim, na escuridão replicada vezes e vezes sem conta até gritar de frustração, de medo ficar sem voz – e se – mas correr, e gritar, não era sensato. Pois o quarto estava cheio de sombras sólidas.
Coisas rastejavam atrás da penumbra, coisas corriam com ele, a seu lado ou atrás de si como se o caçassem, rodeavam-no esperando que adormecesse, que estivesse muito tempo virado para um lado e negligenciasse o que se passasse atrás de si; respirando, fungando, rosnando. Coisas não-ele; coisas não-entidade. Por vezes extremidades suas discerniam-se na penumbra, demasiado perto de si mas apenas por brevíssimos momentos – pretas., seriam mesmo pretas? – com protuberâncias afiadas, verticais e deformadas como montanhas, ou curvas anavalhadas em centenas de segmentos. Nunca conseguia perceber quantas coisas daquelas existiam, mas o propósito de o caçarem ou matarem era claro, pois por vezes conseguiam rasgar-lhe as costas, morder-lhe os tornozelos antes de fugir, arrancar-lhe pele e sangue dos braços e das pernas. Por vezes tentava confrontá-las, frente a frente;, elas atrás do limite do visível na penumbra. Vendo apenas as suas formas e o tamanho, por vezes perfeitamente bípedes – e a solução era fugir. Fugir, correndo até tropeçar em algo invisível, cair ao chão e rastejar em pânico olhando em todas as direcções, a porta ainda (sempre) perto, e ainda fechada.
Mas havia qualquer coisa naquela quase-escuridão. Havia coisas, palpáveis, ainda que não exactamente definidas. – concreta e completamente definidas, na verdade? – A possibilidade de encontrar alguém como ele, que fugisse também por aquele espaço infinito, talvez encontrar um dia um reflexo da outra sala se esse reflexo também fosse real (?), também fugindo em pânico, procurando ajuda ou respostas, mas como? Como encontrar algo, alguém, que lhe desse as respostas que precisava, que lhe oferecesse uma solução para sair dali?
Na sala dos espelhos só se tinha a si, em confronto com a sua própria noção de existência. Mas na sala das sombras coisas reais passeavam-se pela vastidão que todas as vezes percorria, a correr, fugindo de algo, nunca corajoso o suficiente para ver se seria mesmo devorado. Caso finalmente parasse. Quando um feixe de luz atrás de si, ou que lhe encadeava directamente a visão, se expandia da porta num feixe geométrico, corria aos tropeções de encontro à luz e sentia-se ser agarrado, finalmente, por mãos e garras que se aproveitavam do seu estado de cegueira momentânea. Mas as coisas nunca passavam da porta nem entravam no quarto, atrás de si. Ficavam do outro lado da porta, nas sombras, à espera que voltasse.
Ofegante, confuso, via as suas feriadas e tinha medo de fazer novamente uma escolha. Ou qualquer escolha. Onde se encontraria a resposta para o facto de estar ali? Qual era o seu propósito, para além de fugir daquele lugar? E passaria essa fuga, necessariamente, pela procura de porquês?
Porém, sempre antes de descansar, de dormir, de poder ficar em paz – sempre cedo demais – porquê, porquê – do outro lado das paredes as vozes crianças começavam novamente, baixinho, a murmurar –


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Aqui há uns anos atrás (na verdade foi Sábado passado) fui para o DOC Lisboa da mesma maneira que fui todos os anos. Alguém me convida, e eu pondero novamente porque é que não me lembrei que estava a decorrer o DOC Lisboa. No auditório pequeno passava um documentário sobre a música moderna nascida nos pelos anos 60 nos Estados Unidos e iam entrevistando o John Cage, narrando parte do documentário em francês com uma voz robotizada, ligeiramente irreal, Steve Reich, Terry qualquer coisa, La Monte Young, Phillip Glass, um inglês gordo e careca que gosta de compor madrigais, etc. etc. até acabar num gajo do techno de Detroit – o próximo passo; porque, supostamente, a música moderna tem como temas subjacentes o ritmo, o silêncio, a repetição. Composições dos artistas supramencionados têm esses temas, essas preocupações, como pedra angular das suas criações. O documentário passou deliciosos excertos. O La Monte Young manteve a barba, apaixonou-se pela composição indiana, e fritou de vez, todo ele grisalho e de cabedal preto; a Monk ainda usa longos totós e o Terry cenas e o Steve Reich cultivam o boné na cabeça. O jugo das peças dos compositores clássicos faz com que as composições de música contemporânea sejam postas de lado. São pouco tocadas, pouco ouvidas. A ditadura dos clássicos, diz-se. 

Um tipo sai destes documentários em que não espera nada com umas pequenas epifanias, uns pequenos buracos brancos dentro de nós cheios de vontade de preencher. Entre The Well-Tuned Piano do La Monte Young e uma rave qualquer em Detroit, gostei particularmente do excerto de Music for 18 Musicians. Demora cerca de uma hora. Podem pôr a tocar a partir dos 27 minutos. Ninguém vos condena.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Não ficção

As manhãs são passadas a olhar para a janela, lavar-me para me sentir limpo em conformidade com o mundo real, salty betting,

http://www.saltybet.com/

mandar currículos, ver o céu nas nesgas por entre os prédios da cor do metal, net, Picoas, reler folhas escritas com a mesma caneta, e as tardes são passadas a enfrentar esse mesmo céu e um vento qualquer, escrever e ganhar esperança, e de repente caiu a noite -

Esperando promessas que fiz a mim mesmo

À espera.

Um futuro possível: quiseram que fosse dar aulas de inglês a putos do básico. Da segunda à quarta classe. De repente, ser professor - eu sempre quis ensinar, mas não ser professor de miúdos. As aulas seriam em Amadora - Falagueira, Reboleira. Voltava a casa, ou continuaria a ser um produto da roda contínua cujos sedimentos que vai triturando dos homens modelados assentam sempre no mesmo sítio.

Por outro lado: para a próxima, ficção.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A vida adulta, resumida.




The World is just a simple circle
You've got to keep on turning
Yeah
Got to keep on turning
Or down you fall

Na Praia

Fui à praia, ontem. Temos aquela ideia algo romântica, e - desconfiamos - mentirosa das praias vazias no Outono e no Inverno. As paredes da casa queriam fechar-se sobre mim e percebi que a manhã cinzenta ia dar lugar a um dia quente de Outubro, pela tarde. Já queria ir à praia há algum tempo nesta altura; um tipo inventa sempre uma desculpa para poder ver o mar.

E fui. Deve demorar-se o mesmo tempo ir à Costa ou a Oeiras, de minha casa. A Ponte sobre o Tejo está quase aqui ao lado. Quinze minutos de carro a uma Segunda-Feira ao início da tarde, se estiverem nuvens no céu e, calculo, seja Outubro. Sou uma excepção nestes caminhos, a estas horas. Nada me prende a nada. Vou-me sentindo um intruso cá fora na rua, a estas horas. É uma sensação estranha. É suposto não existirmos fora das nossas realidades profissionais - prédios, cubículos - entre a manhã e o final da tarde. A mim, esperava-me a praia.

Estava completamente vazia, aparte o surfista ocasional e um homem ou outro com o seu cão. Era exactamente o que tinha imaginado. O céu imenso, a maré vazia, o Sol a rasgar as nuvens finas e irregulares e a fazerem o mar ofuscar em remendos de luz. Fiquei por lá. Passaram por mim pescadores em tractores e pararam talvez um km depois. Li, olhei para o mar até me cansar, percorri o areal junto à agua. Os pescadores estavam a puxar as redes do mar, e centenas e centenas de gaivotas estavam no areal à espera. Fui até lá, e quando as redes estavam perto da costa todas as gaivotas levantaram voo.

Foi bonito.

Não ver o mar é algo que me angustia. Se não o fizer de vez em quando - não sei. Talvez seja só uma estupidez minha, uma idiossincrasia sem nexo. Eu gosto da Costa da Caparica, gosto do mar da Costa. O parque tinha aquela gravilha e aquele pó branco que não vejo em mais lugar nenhum. As ervas tentam nascer e crescer naquele solo estéril, fustigado pela areia e pelo sal. E o mar, o mar. O mar. A maré vazia, o areal extenso, o Sol a exigir-se como sagrado, rasgando as nuvens que cobriam quase todo o céu.

Uma confusão de gaivotas, cães excitados, e pescadores indiferentes aos cinco, seis mirones que se juntaram para verem a apanha do peixe. Fiz o mesmo, andei mais, e depois voltei.

Fiquei quatro horas na praia, a ler, a andar, a ver o mar, a emocionar-me com os sons apenas essenciais. Queria ter voltado a pé para casa, chegar esgotado a meio da noite e atravessar a ponte olhando para o Tejo e para Lisboa à minha velocidade.

Acho que mais do que ser escritor, gostava só de poder observar as coisas até me esgotar nelas. E, assim, percebê-las à minha maneira.

Regressei, deixei o mar para trás, e voltei a falar com a boca.

domingo, 15 de setembro de 2013

Dia Final

O torneio começava, e eu dormia. Não dormia, mas dormia. Passeava-me pelos corredores do hotel a contornarem a piscina, passava pela alcatifa azul-escura com finas ondas verdes bidimensionais e televisões com projecções de sons curvados e fortes, curtos, a imitar projécteis eléctricos, bolas de plasma como sopros carnívoros ou murros e pontapés a entrechocarem-se por todo o lado nos ecrãs. A luz estava baixa. na parede passava uma imagem pálida do stream, esbranquiçada. Eu só estava cansado da semana, demasiado cansado da semana, e dropei combos a torto e a direito. Ponderei largar Marvel, ponderei mudar a equipa, ponderei dormir.

Cheguei a casa, dormi, dei uma boleia a um tipo que ficou no top 8, e Marvel?

Marvel é uma merda até ao próximo combo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dia 26

Acho eu.

O trabalho - e o que é um torneio. O que é alguém que queira escrever, domingo à noite cansado de existir de menos num fim de semana que termina. Ouço umas canções calmas e ternas, recusei enrolar um charro, decidi ter, novamente, saudades da namorada que nunca, quase nunca, deixou de o ser.

Nestes dias, treinar parece inútil. No escritório, ultimam-se os pormenores para começarmos todos a trabalhar entre onze a catorze horas por dia. Há setups com a Trish que posso ir aprendendo. Há amigos que vão apanhar fruta para poderem dormir no hotel do torneio - mas eu ofereço-te um sofá, se quiseres. Há uma saco-cama que é grande, e quente até no Inverno. Aproveitamos e treinamos um bocado nas vésperas, se sobrevivermos até Domingo.

E depois viagens de quatro horas às sextas-feiras à tarde; sonhar em correr, correr novamente. Correr para quem nunca mais poderia correr outra vez. Oito Kms, se assim me deixar. Escrever as mágoas de não ter um tempo livre que deixei correr, correr. Foi fugindo, entre Portugal e África, entre manhãs no Picoas e tardes em casa a treinar combos preguiçosamente, a perna descansando, feliz e magoada, e passeios por Lisboa. Cheia de luz por toda a parte. Passar pelo quase-nobel, careca e de lábios a tremer, da mesma cor da pele, lendo o correio da manhã com um aparelho auditivo posto.

E à noite, depois do jantar, depois da cabeça cheia de cansaço - vazia de ideias - treinar é chato. Treinar é inglório. Treinar não faz sentido. O que quero, as coisas que desejo - afundam-se nas ondas de carinho que peço à mulher de quem gosto. Aos filmes que saco, às bds que compro, aos livros que ensaio ler. Vou à net, e sou para sempre um 9th lord com 44% de vitórias. Números do pedreiro orgulhoso.

Support the community. Sê um homem. Não jogues essa merda, és um advogado, já não podes fazer essas merdas. Mas os combos, meu. Os combos. E o que interessa? Queres correr comigo? É o que vou fazer a seguir a isto.

As ideias de que vou ser completamente bodied seguem dentro de momentos. Enquanto abraço a morena de quem aprendi a gostar de tudo, a preocupação desvanece-se. Imagens de mim num comboio, à noite - de fato ainda - substituem-na.

E, com elas, as folhas de papel.

domingo, 18 de agosto de 2013

Dia 13



O novo trabalho intromete-se, e passo a entrar cedo e a sair tarde. O meu treino muda para combates online - à hora de almoço, ás vezes - e meia hora de treino à noite, com muita frustração à mistura.

Andei uma semana a tentar uma nova extensão com o dormammu que envolve heavy + flight + L + H + dark hole L + H + dark hole L + S e depois o normal, pilar L otg chaotic flame.

E o que interessa? Nada. Apenas mais uma centena de dano, se tanto, que em Marvel é a diferença entre a vida e a morte. Por isso é que me canso depressa do training mode. Eu gosto é de jogar, porra. Claro que a satisfação de fazer um combo bem feito até ao fim e estabelecer mix-ups bem sucedidos e hit-confirms é imensa. Mas hit-confirms já faço muitos (com a Trish) e mix-ups vou fazendo (sobretudo com a Trish). Quando ela morre, o meu jogo acaba-se. O meu deadpool raramente serve para comebacks de x-factor. A minha equipa é mid-tier e a minha execução low.

Projectos: até ao torneio, o esforço, e depois a pausa.

Este fim de semana consegui finalmente fazer um corner-carry bn'b combo com a Trish para além do vanilla L M H S M H H S assist ou tiger knee super. Mas ainda vai demorar até o conseguir implementar de forma consistente. Ando a jogar com o Digos25, com o Ferdi, com o Blue. Vou levar na boca à grande, no Lockdown. S'all good.

Mais importante é não ser despedido.

Ah, melhorei um pouco a consistência do infinito do deadpool em nível 3 x-factor.

Um pouco.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Dia 1

A minha equipa em Ultimate Marvel Vs Capcom 3 (UMVC3) consiste na Trish, on point, Dormammu e Deadpool. 

Não é a equipa com mais sinergia do mundo mas, como em todas as equipas, a sinergia vai-se procurando e encontrando. Um rundown de cada um dos seus membros, um de cada vez:


TRISH


A minha menina. My main bitch. Não foi amor ao primeiro uso, mas foi ao segundo. Eu gosto de personagens móveis que controlem bem o espaço e a Trish, na minha opinião, dá-me tudo o que preciso. É rápida, tem um voo, dois tipos de dash no ar, o seu plink dash (no ar) é excelente - e irei aprendê-lo - tem quatro tipos de projécteis diferentes, e duas armadilhas situacionais - hopscotch e pekaboo - no campo de batalha. Pode ser jogada como rushdown char (character) ou keepaway. Contra ela poder-se-à dizer que é um híbrido que não se especializa em nenhum dos dois papéis. É mid tier, na minha opinião. Pouca gente joga com ela (o que é vantajoso para quem a usa) pelo estilo pouco ortodoxo da personagem. Tem ainda o facto de infligir pouco dano, nenhum dos seus ataques fazer OTG (off the ground), o que faz com que necessite de um assist que a faça continuar o seu combo. Não tem muitos hitpoints. Ainda assim, é a personagem com que mais joguei até hoje. Não sabendo jogar muito bem Marvel, conheço-a e sei o que pode fazer. 

Na minha equipa, a Trish encabeça o combate. Perdê-la cedo é sempre problemático. Mas tendo algum oxigénio para desenvolver o meu jogo, consigo bons mix-ups. O seu assist é o pekaboo, que costuma surpreender a maioria dos jogadores quando o Dormammu está em jogo.


DORMAMMU


O arqui-inimigo do Doutor Estranho entrou na minha equipa há coisa de ano e meio. Deu algum trabalho "aprendê-lo". É uma personagem de keepaway, sem tirar nem pôr. O seu zoning game é dos melhores do jogo, e o seu dano excelente, principalmente em x-factor. 
Uso-o para fazer DHC (trocar de personagens entre ultras) da Trish para o Dormammu e para activar x-factor nível 2 se a trish cair cedo. É lento, mas tem teleportes que, não sendo 100% seguros, permitem que se movimente melhor pelo ecrã.
O seu assist é o dark hole. Não é um grande assist e, como tal, uso-o pouco. Com ele quero optimizar os combos b n' b (bread and butter) que já faço.


DEADPOOL

O meu "anchor", a personagem que apenas entrou na equipa há coisa de quatro meses, e está cá por causa do seu assist: chimichangas, OTG. Aparece em último porque, naturalmente, o seu assist beneficia tanto a Trish como o Dormammu. Se tiver que o usar é mau sinal. Mesmo com x-factor, não é das melhores personagens para montar comebacks. Tem teleportes, mas o terceiro atrofia sempre, pelo que temos que contar as vezes que usamos o golpe. É, tal como a trish, um híbrido, mas funciona melhor on point, ou seja, em primeiro lugar, fazendo zoning ao adversário assistido... pelos assists.
O meu plano é optimizá-lo. Aprender a jogar com ele, melhorar os meus combos, enfim. Familiarizar-me um pouco mais com ele.

Hoje: treino leve e talvez alguns ranked matches.

Estado da Arte

Comecei ontem a trabalhar no meu emprego novo e não comecei a entrada de hoje por cansaço, habituação à nova rotina, perdendo-me nas nuvens do ar rarefeito onde mal se vê a Terra, lá em baixo; porque sim, está por baixo das ditas, tridimensionalmente desenhadas. 

Tenho um torneio dia 15 de Setembro para o qual me quero preparar e estabeleci para mim mesmo a experiência de, através de diário digital, escrever todos os dias os progressos na preparação para o Lockdown 2013 (o nome do torneio). É o maior torneio de jogos de luta em Portugal e há feroz competição nacional e estrangeira. Para um scrub, como eu, os ganhos serão evidentes: level up evidente das minhas capacidades em movimentar um stick -

Mexer num stick num jogo de luta é como treinar um instrumento musical. Os botões são as teclas, e segue-se a pauta do combo, que tem de ser memorizado, improvisam-se melodias e o virtuosismo adquire-se com a prática - 

, glória   para mim e para os meus se chegar longe, e a possibilidade de poder, no futuro, jogar casuals com pessoas que já no passado fizeram o esforço que eu ainda não fiz, não me sentindo diminuído no meu potencial desperdiçado.

O jogo, esse, é o Ultimate Marvel Vs Capcom 3. Não prometo que apenas descreva a normalidade dos meus treinos, mas descreverei a normalidade dos meus treinos até ao limite do absurdo - talvez - em franco diálogo interior o mais fechado possível. Que se foda. 

Ouvirei várias canções ao final do dia e enquanto treino para manter alguma sanidade. Ando a sair todos os dias às 8 e meia da noite.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ramalah - Parte Final



Morrem os deuses e o Homem perdura. Primeiro, subjugados à sua existência. Depois, conquistadores de um sonho impossível, eles próprios deuses, navegando pelos limites do universo à velocidade de um pensamento devorador, pensamento limitado apenas pela imaginação – e finalmente livres, até o sabor do pensamento cansar. Salvarem-se, primeiro, era o mais importante. E salvar a Terra. A sobrevivência faz nascer nos que mais a praticam novas habilidades. Para estes homens, foi a capacidade semi-psiónica de comunicarem e executarem uma tarefa unidos, pela mente, pelo mesmo propósito. Herança inesperada da luta contra o deicídio: uma espécie de telepatia. Salvando a Terra, terraformando-a, resgatando aos oceanos a sua falta de vida. Tinham já perecido há muito tempo, nos oceanos alcalinos, a maioria dos peixes, todos os moluscos, e reduzidos a partículas ósseas os esqueletos de todo os cetáceos. As savanas tinham ardido, os desertos de sal apodrecido, as florestas ardido e secado. Os sopros de vida das planícies e planaltos eram abafados pelo peso dos metais pesados, entranhados, abraçando-os até os estrangularem. Tanto havia para reaprender e salvar. E os homens reaprenderam-no. Nem todos os livros feitos pelo Homem pereceram. Alguns foram descobertos como fósseis, resgatados às entranhas de uma Terra que, outrora, tinha albergado outros Homens e os viu desaparecer, dando aos seus filhos mediatos a possibilidade de um futuro igual aos tempos de outrora. E quando a linguagem antiga foi resgatada, com o propósito de salvação da Terra veio um outro propósito, um cujo tempo, e a raiva, era indispensável para que o Homem pudesse respirar, dormir, amar em paz! Apagar todos os vestígios de Ramalah da Terra e da sua vida. Que a memória dos falsos deuses passasse apenas pelas Luas esburacadas, as suas órbitas agora erráticas e as marés imprevisíveis, passeando por um céu vazio. Na Terra, pelos homens, a destruição desses vestígios passava pelas ideias e pela linguagem. A linguagem antiga, de uma só palavra e pontuação vasta e perfeita, proibida. Ainda era permitido aos homens usarem-na, mas o prazo para se verem livres dela e aprenderem a linguagem antiga era curto e desconhecido. E quem diz a um Homem livre de Deus o que ele tem de fazer e quando?
Mas a raiva. A raiva, fervendo e borbulhando ao longo de muitas gerações, não se esgota na catarse de um tiro duplo, mágico e milagroso, ainda que esse mesmo tiro tenha tido o condão de matar o divino. O primeiro conselho eleito de homens-bons pós-Ramalah teve como principais prioridades recuperar os conhecimentos e alfabeto antigos e designar grupos com o intuito de ensinarem a linguagem antiga aos menos conhecedores dos assuntos arcanos. Disciplinar os que se recusassem a abandonar os seus hábitos linguísticos. Proibir todo e qualquer culto a todos os deuses que se pudessem inventar. Foram destruídas todas as igrejas, templos, altares. As suas pedras e metais nobres reutilizados. Os ídolos de Ramalah queimados e rebentados à vista de todos. E quem, entre a turba entusiasta, por descuido ou inconsciência, ousava gritar “Ramalah”, qualquer que fosse o seu significado – ainda praticando os velhos hábitos de linguagem; era espancado com os mesmos paus e pedras usados na destruição dos ídolos.
Mas se somos livres, verdadeiramente livres, perguntavam certos homens e mulheres, porque não posso ter eu a liberdade de invocar o nome dos falsos deuses, mesmo que – precisamente porque – involuntariamente? A liberdade está nas minhas mãos, eu sou uma pessoa livre! Preservarei o que entender das minhas experiências e ensinamentos. Gritarei e direi o que for preciso enquanto vivo, existo, sou.
Não, os que tanto lutaram pela libertação da espécie humana não merecem que tudo aquilo que sacrificaram seja desrespeitado dessa forma; nem isso, nem a memória que teremos, colectivamente, deles – o sacrificar silencioso de dezenas de gerações, o seu rasto perdido no pó levado pelos furacões do tempo. Decidiram isto os líderes. E, com isto, alguns homens discordaram. E ordenaram a Extirpação.
Com o seu desencadeamento floresceu, fértil, um terror. Milícias formam-se espontaneamente, perseguindo quem se recusa a abandonar partes ou a totalidade da língua antiga, ou quem não consegue aprender a nova. As casas são invadidas, os praticantes e hereges mortos violentamente à frente dos seus filhos, e quem foge é perseguido até ser apanhado e morto, pelos montes e vales de uma Terra morta. Era a Extirpação, farejada pelos pensamentos partilhados dos homens. O homem tornara-se num novo carrasco, à imagem e semelhança dos carrascos que o antecederam. Enquanto reconstruía o seu planeta e civilização, perseguia, condenava e matava quem ainda o fazia lembrar dos deuses que, durante tanto tempo, os seus antepassados subjugaram. O homem ia-se matando, em rios de sangue, a si próprio, e os homens morriam e matavam-se e fugiam uns aos outros e uns dos outros, livres do jugo e ira divinos, escondendo-se dos seus novos algozes, queimando-se em gigantescas piras, livres, livres, para sempre livres, livres para conquistarem as estrelas, e matavam, violavam, e assassinavam-se a si próprios, numa espiral elíptica, girando infinitamente sobre os eixos das vontades do Homem, o seu próprio carrasco, e o sangue fluía, corria das soleiras das portas das casas e entradas das cabanas, fundia-se com o pó dos caminhos e erva amarela, enquanto amigos, irmãos, e pais e filhos se caçavam uns aos outros, apenas com o céu nebuloso, por cima das suas cabeças, observando e julgando as suas acções.

            O Homem, livre, matava-se a si próprio.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Thor encontra o corpo de um Deus Assassinado




"He used to wrestle black holes for fun."

terça-feira, 9 de julho de 2013

Ramalah, parte 6

            De olhar em olhar, de gesto de mão em gesto de mão, de Ramalah – entoando-se a palavra de um modo nunca antes ouvida por ninguém – em Ramalah, a ideia de exterminar os deuses passou pelos olhos e ouvidos de cada homem e mulher, lenta e singularmente. Décadas passaram até meras centenas de pessoas entenderem que, no despojamento total de todas as suas liberdades, tinham finalmente conseguido pensar e comunicar de uma forma que os deuses, espiritual e fisicamente omnipresentes, não conseguiam sentir. Os deuses liam os pensamentos dos homens há quase um milhar de anos; e o homem aprendera a não pensar. Mas algo surgiu de uma linguagem apenas composta por uma palavra, entoada e pontuada de uma miríade de formas diferentes, aliada a uma existência mecânica: os homens aprenderam a querer falar e pensar de novo, e usavam essa forma de mecanizada de comunicar para, através da entoação, dos gestos aparentemente sem sentido relevante, e das pupilas mais ou menos dilatadas e dos olhos mais ou menos semicerrados, dos gestos erráticos das mãos, e dos braços e dos pés desenhando formas abstractas no chão, veicular uma proposta de intenções. Quão difícil foi espalhar a boa-nova. Sem se poderem reunir, cada homem e mulher era exposto à nova mensagem na rua, de passagem, num rápido Ramalah acompanhado de um gesto subtil que os deixava no limite do controlo das suas emoções. Ninguém parava para dialogar sobre Isso. Nas conversas sobre o trabalho, sobre os conselhos práticos de cozinha, vestuário e educação, uma mão descansando no peito podia apertar-se e, aliado a um olhar, era o suficiente para duas pessoas estarem a ter duas conversas diferentes ao mesmo tempo. Mas como fazer para preservar uma ideia, um plano, sem o poder pensar e escrever, como poder criar algo que sempre seria perene, preso às amarras de um não-diálogo, uma oralidade secreta? E como conseguir o impossível sem o preservado saber de outras eras? Dos livros antes de Ramalah já nem as cinzas existiam. Ninguém se atreveu a decorá-los.
            E, ainda assim – que outra coisa restava aos homens a não ser tentarem a sua salvação?
            Foi assim posto em funcionamento, fruto da falta de qualquer outra alternativa possível que concebesse a reconquista da liberdade humana, o plano mais ambicioso do Homem. De pessoa em pessoa, de palavra em palavra, foi posta em prática a criação de uma maneira de matar os deuses. Um dispositivo supra-humano; uma máquina-milagre. Como o fazer, e como construí-la? Tal levaria, certamente, centenas ou até mesmo mais de um milhar de anos; e como o fazer sem que Ramalah notasse? A pouca matemática preservada, para uso dos cérebros humanos e usada em prol dos deuses, foi posta ao serviço de um novo desígnio. Aqui os deuses não querem, os homens não sonham – mas a obra, ainda assim, nasce, por mais lento e doloroso que seja o seu parto. Dividiram-se em dois, as mulheres e os homens: os pensadores e professores. Os primeiros delineariam o plano e criariam os objectivos para a construção das máquinas necessárias para matar os seus deuses. Os segundos estariam encarregados de receber, partilhar e decorar tudo o que lhes era transmitido em primeira mão por cada pensador, e comunicar aos outros pensadores cada nova teoria, conclusão, admissão de erro na teoria, discordância, mensagem, ou preocupação. Ideia a ideia, a narrativa do que seria a destruição dos deuses tornara-se maior que qualquer livro alguma vez escrito pelos antepassados do Homem. Era língua viva, sussurrada em movimentos.
            Não se tinham enganado que o tempo previsto para matar os deuses seria grande. Com a necessidade se encontrarem sempre em trabalho constante para manter adormecida a fúria divina – que, aqui e ali, continuava a manifestar-se, o seu modus operandi agora mais do que entendido pelos homens, e esperado até, ainda antes do abate do infeliz alvo da ira de Ramalah –, com a lentidão que cada discussão, análise de teoria, correcção no Plano, refutação do caminho a seguir, e falecimento dos pensadores e professores, a criação da máquina-milagre começou mais de um século após o primeiro pensamento desviante. Comovente – não quase, comovente! – a abnegação daqueles que sabiam que não estariam vivos quando finalmente as suas esperanças tivessem uma forma, e ainda assim escolheram, com a estoicidade de quem aprendeu a viver, desde a nascença, sem querer ou desejar, manter o silêncio dos seus pensamentos e morrer com a mente vazia, branca, exausta. E escravos. E sempre de entoação em gesto, de Ramalah em Ramalah… os homens partilhavam a sua mensagem mais longa ininterruptamente uns com os outros, e viviam e morriam, em gestos desinteressados iam apanhando metal ferrugento e soldavam-no, dobravam-no e juntavam-no, trabalhavam até morrerem de cansaço. O trabalho era lento, e assim os pensadores, por forma a permitir uma construção mais célere da máquina-milagre, reorganizaram e redefiniram a pontuação do alfabeto de uma só palavra para que um texto pudesse ser tornado secreto. Inventaram, ainda, símbolos novos, que tinham o condão de serem confundidas com manchas de tinta, borrões, normais para quem assenta num papel ideias e números depois de um dia de trabalho físico tão intenso que as mãos tremem e os lápis delas se soltam, esperneiam e morrem no chão, depois de rebolarem naquilo que parece ser uma indiferente agonia. A partir do momento em que a Máquina se escreveu, a sua existência passou do plano das Ideias para as quatro dimensões. E ganhou forma. A máquina teria uma saída dupla: uma para cada Lua, uma para cada Deus, uma para Ramalah. Criada em segredo, o facto de não ser pensada tornou-a invisível, apesar de ter mais de trinta metros de comprimento e quase meio quilómetro de largura, agora com centenas de homens a trabalhar nela todos os dias. Feita de metal em ferrugem, de madeira, e de materiais compostos resgatados de um mundo que já não existia, erguia-se fumegando de cada uma das suas bocas em forma de funil. E quando ficou pronta, os homens finalmente, na iminência de serem livres, antes de a ligarem, quiseram escrever na sua base os nomes de todos os que contribuíram, ao longo de mais uma centena de anos, na construção da Máquina-Milagre.
            Mas abandonaram a ideia quando perceberam que não seria justo que a máquina que iria destruir os deuses tivesse escrita nela, para cada nome, centenas de milhares de vezes repetido, o termo “Ramalah”.
            O primeiro pensamento livre aconteceu ainda antes da morte dos deuses. Foi uma palavra pensada e proferida como tantas outras: Ramalah. Pois claro. Há muito que os homens se haviam esquecido da sua língua original. Mas a entoação com que foi dita, a força com que foi pensada, a forma como pretendia que se ligasse qualquer coisa – os homens sentiram os deuses acordarem e procurarem nas mentes de cada um deles o que significava esta chama de emoção.
            Tarde demais. A máquina foi ligada, e só precisava de ser ligada e de funcionar apenas uma única vez. Dois raios gémeos foram disparados das suas extremidades, pilares de energia nunca antes vistos por olhos humanos, tão grandes e largos que escureceram o céu, cordas de luz cilíndrica em direcção às Luas. Os homens sentiram um pânico estrangeiro nos seus corações: era o de Ramalah. E ainda antes de os raios atingirem as estruturas insectóides lunares onde os deuses vigiavam a Terra, ainda antes de serem incinerados e apagados da existência os seus carrascos divinos, e enquanto as Luas se desagregavam, num espectáculo quase tão belo quanto mortal, e caía na Terra uma grande e impiedosa chuva de meteoritos, queimando e destruindo indiscriminadamente, matando e incendiando tudo aquilo em que tocava, os homens dançavam, dançavam e choravam de alegria no meio das chamas e da terra que ardia e tremia descontroladamente, herdando uma Terra destruída e um futuro de sobrevivência incerta, mas sem de Deuses falsos, um futuro livre.
 E dançando e abraçando-se continuavam enquanto à volta deles tudo ardia, tudo morria, e eram livres.

            

segunda-feira, 8 de julho de 2013



Vai estando calor, eu vou estando de férias; reviro-me na noite, navegando entre o sonho e a realidade nas ondas irregulares do lençol por baixo de mim, persiana semi-aberta, novos paradigmas de penumbra e luz enquanto parto para a outra realidade. Um conto quase acabado vai cozendo no ambiente de trabalho e eu vou afastando o calor e a humidade de uma África onde estive. E depois a escrita chama por mim, e o calor derrota-me, porque está calor, calor escorrendo pelo meu corpo e o suor um halo à minha volta. Refastelo-me nas nuvens ondulantes incolores que o Sol dobra no ar onde quer que me encontre. Montara. Sou adulto, é Verão, entre uma vida e outra vou respirando o entretanto, sem me enervar ou preocupar.

Quando acordar de vez -

Até acordar de vez.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ramalah, parte 5

Por mais sal que fosse extraído dos oceanos, escavado nas montanhas arenosas ou sintetizado em laboratórios; por mais animais sacrificados, escorrendo o sangue dos seus pescoços ensartados em direcção ao centro da Terra. Por mais “Ramalah!” que se gritasse com as bocas abertas e os braços estendidos para cada uma das luas; por mais que se transmutasse a arte, ciência e linguagem em honra aos deuses – nada parecia aplacar a arbitrariedade cruel e fria da Justiça divina. Quem divergia em acto ou em tom de Ramalah era morto, a sua vida terminada das maneiras mais incompreensíveis. As tentativas de rebelião eram tão fúteis quanto – bom, mas que humanos podem arrogar-se da fantasia de matar um Deus? Nos comícios improvisados – na reunião de uma empresa, na festa de um aniversário, num café ou bar – os porta-vozes dos sentimentos envergonhados dos homens eram mortos assim que verbalizavam, a medo ou com irreverência, as suas intenções. Mortos – cada um deles – de maneiras apenas compreensíveis a um ser superior. Num momento, gritando em revolta contra uma das Luas,, no outro os seus corpos contorcendo-se, elevando-se no ar. Contorcendo-se mais e mais à frente de todos, no ar, e desfeitos, revirados por dentro, soltas as entranhas num arco, ou serpenteando como uma bandeira horizontal. Comprimidos numa bola apagando-se no próprio ar, sobrando uma nuvem vermelha no ar com o símbolo sagrado de Ramalah. Ou, não interessa quanto se suplicasse ou gritasse perdão, perdão, os seus corpos simplesmente subiam em direcção às Luas. Quem assistia benzia-se, orava em silêncio e de olhos fechados com os braços apontados a cada uma das luas. E, tremendo, deixavam o cenário do julgamento. Homens podiam ser esticados em cada uma das direcções até ao limite da elasticidade dos seus corpos, ou preservados vivos para os gritos de agonia ficarem marcados nas memórias dos aprisionados. Pois que o Homem estava aprisionado, aprisionado existencialmente, era certo. Era uma certeza que já tinha passado pelo coração de todos.
O medo de errar advinha da ameaça da morte. Mas como errar? Qualquer comportamento indigno a Ramalah seria um erro, uma blasfémia. Cabia a quem sobreviva aprender com os erros de quem entrava em combustão espontânea, ou a quem a pele, subitamente, ganhara a consistência da água e escorrera pelo corpo abaixo, também ele se liquidificando rapidamente demais para tentar um perdão.
Como sobreviver? Vivendo no terror, só através da educação dos sentidos e dos desejos se controla um homem. Revoltar-se era indiferente. A espécie humana percebeu, sem necessidade de qualquer messias de outros deuses, que a luta contra o divino não podia ser ganha. A revolta era indiferente. Ramalah passaram de deuses a demónios, algozes divinos que escravizaram toda a espécie humana. Desejavam sal, sacrifícios de animais, e total obediência. A sociedade, estruturada num modelo com as fundações assentes há mais de três mil anos, respondeu como podia. A produção de arte parou quase por completo, a não ser a sacra. A existente foi mudada, refeita, destruída. Os serviços reduziram-se. A Justiça penal humana terminou. Os juízes, advogados, polícias e militares trocaram as becas, togas, e fardas pelos uniformes de mineiro. Na educação, poucas as universidades de letras e ciências permaneceram abertas com o enfoque na engenharia, química e física, para tudo o que pudesse ajudar a potenciar a extracção de sal e na unificação das línguas faladas numa nova, a ser implementada gradualmente ao longo das décadas que, com um enfoque na entoação, substituísse a linguagem para que apenas a palavra Ramalah fosse suficiente para o Homem se expressar. E assim teve de ser pois, quanto mais os homens se submetiam ao jugo de Ramalah, mais a Justiça divina procurava os pensamentos pecaminosos dos homens que aceitavam, por vezes, deixar as suas mentes correrem como um rio e imaginar um mundo sem Ramalah, livres e podendo gritar o que quisessem.
E as crianças foram ensinadas a não pensar numa existência sem deuses, e as crianças foram ensinadas a não pensar coisas revoltosas. E cresceram as crianças procurando nos olhares dos seus pais e amigos a centelha da revolta que nem em pensamentos se ousava manifestar.
Os centros comerciais foram convertidos em templos. Pouca utilidade tinham para além dos supermercados abertos com os seus bens alimentares. Os livros no mundo iam sendo queimados, um a um, aos milhões por dia, em fornalhas para alimentar as máquinas de extracção de sal, ou as máquinas que permitiam que outras máquinas continuassem a funcionar para o prazer dos deuses das Luas. Para consumirem o seu sal e olharem para os escravos criados para vencerem o cosmos um dia, pensara-se, à sua imagem e semelhança.
Séculos após a vinda de Ramalah, o Homem abandonara há muito a ideia de um destino livre e próspero. A linguagem desaparecera. Tudo era Ramalah, a comunicação era feita através da entoação que cada um usava na palavra. Na escrita, a pontuação ganhara o estatuto de descodificadora dos textos e relatórios de produção, manuais técnicos e livros sagrados, os únicos ainda impressos e lidos, compostos apenas pela palavra “RAMALAH”. Na linguagem, a entoação criava o discurso, o significado diverso. O mundo murmurava, ininterruptamente, a palavra Ramalah. Nome, Verbo, e Atributo. Ramalah. Apenas se falava, se dizia, se clamava, se pensava, e se ouvia Ramalah. Abandonara-se tudo para a salvação da espécie humana. Ramalah, Ramalah. A espécie humana escravizada em corpo, mente e espírito, fora derrotada por Deuses traidores, nada mais do que seres superiores, vindos dos lugares desconhecidos no cosmos que, um dia deixaram as sementes da vida num globo suspenso na vastidão do espaço e, tendo semeado, vinham agora finalmente colhê-los, um a um, até nada restar a não ser o seu próprio nome, dto ininterruptamente enquanto se afogavam em todo o sódio que conseguiam. Ramah e Lah, Ramalah, Ramalah, Ramalah, sempre e para sempre, Ramalah.
E assim se passaram mais de mil anos. O Homem esquecera-se de quem fora, da sua história, do seu destino nas estrelas, da sua linguagem e da sua arte, dos seus feitos científicos e dos seus líderes e heróis, de viver e de pensar.
Até que um dia.
Numa Terra de cidades desertas e em ruínas, fábricas gigantes junto a um mar bravo e vazio de navios, e fauna novamente selvagem.
 Uma mulher, habituada desde nascença a não ter pensamentos para além dos estritamente necessários, habituada a não pensar no que pensava, ouvindo desde a sua nascença apenas uma palavra, trabalhando numa quinta de animais para consumo e sacrifício, olhando para o céu, a sua mente sempre uma tela vazia disse, com uma da mãos estendida de uma certa forma imperceptível e um olhar distante e mordaz, a um outro homem que por ali passava, Ramalah.
E, nesse momento, uma nova semente, passando despercebida aos deuses, fora plantada.
A semente do desejo de os exterminar.


quarta-feira, 12 de junho de 2013




Passear pelo cosmos? Porque não. Na descoberta do cosmos a solidão não está tão presente. Supormos que a vontade é a descoberta, o resto torna-se irrelevante. Tempo (inevitável que o tempo seja relativo), amigos – tudo empalidece perante o infinito.

Não dá para passear pelo cosmos. Azareco. 

sábado, 25 de maio de 2013

Point Replica - Sinopse

     Num Portugal em 2027 renascido da crise após a Guerra Secreta com a Alemanha, é anunciada a primeira feira internacional de videojogos a ocorrer em território português. Daniel, Ricardo e Estêvão, três amigos em caminhos distintos nas suas vidas sem ainda um quarto de século, procuram a oportunidade para competirem no Torneio Mundial de Jogos (TMJ) que se realizará na exposição. Entretanto, um ataque terrorista levada a cabo por uma misteriosa organização de fanáticos de computadores e videojogos, na Feira, leva a que um misterioso super-herói nativo de Lisboa, capaz de saltar prédios inteiros e nunca usa o mesmo fato ou a mesma máscara, nem se identifica por nenhum nome, pede ajuda a um dos três amigos para descobrir quem são esses ultra-nerds e porque é que estão a praticar actos de cyber e convencional terrorismo. Pelo meio, um dos três rapazes acabará a Universidade; terão aventuras amorosas; um outro percorrerá o consumo de todas as drogas que encontrar na vontade de perder a sua mente para voltar, no fim, a encontrá-la; falar-se-à de frame datas, RPG's, o estilo de vida pós-contemporâneo, o estranho acordar de uma nação com cara nova, a esperança cautelosa das massas, o sub-mundo da Internet, drogas, um culto que ora à estátua de um homem com a cabeça de um cavalo, super-heróis com a sua dura vida de combate ao crime e preservação de identidade secreta, e o que fazer para ainda acreditar que a vida pode valer a pena mesmo que não seja mais do que a procura e o entendimento que a mesma é composta por um conjunto de sonhos mais ou menos inúteis, pontuada com o que vai surgindo entretanto. 
     É, também, sobre o fim da adolescência, e o que podemos fazer para nos despedirmos condignamente desse estado da vida.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Smorgasboard




Ele caiu naquela vertigem de cores e promessas e pronto, foi o que bastou. Apaixonou-se logo por qualquer coisa outra vez, mas quando lhe perguntavam pelo que era, porque é que levitava quando sorria, trauteava canções quando caminhava e tinha a curiosidade de uma criança traquinas, bom, ele não sabia dizer. Tentou explicar que as razões são aborrecidas porque nos obrigam a nomear as coisas e a compartimentá-las nas regras do entendimento, que estava assim porque sentia que estava num grande intervalo entre algo que era e algo que iria ser, e o tempo parecia fundir-se, noite do dia anterior e madrugada do novo, até a onda rebolar sobre mesma e estar constantemente a receber uma vaga, constantemente a ser um rio passar, a ser um Tejo unindo duas águas diferentes, pedindo sol ou chuva, adormecendo de tronco nu e calções junto a uma tenda à volta de pinhas e caruma seca dos pinheiros ou falando imenso com os olhos, enroscado num cachecol e casaco com penas junto aos olhos no forro do capuz; indiferente. Estás perdido?, questionavam. Nem por isso. Fui só ali e era para voltar já, já, mas encontrei-me do outro lado e, porque tinha saudades minhas, fiquei por lá.
                Ninguém lhe pedia para regressar. E conversavam com este novo estrangeiro contentes também, elas próprias, por falarem uma nova língua.

quarta-feira, 8 de maio de 2013


Fire walk with me.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ramalah, parte 4


Sim, homens e deuses caminharam a início lado a lado, quando começaram as primeiras purgas. Depois de rescritos os livros, modificadas as canções, peças, filmes e obras para terem a representação do divino, criaram-se quase espontaneamente, por todo o mundo, brigadas de fervorosos fiéis que espalhariam, à força, a palavra Ramalah. Os lares dos suspeitos de não demonstrarem diariamente o seu amor a Ramalah eram visitadas por estes fanáticos, em busca de parafernália religiosa em quantidade aceitável, ou de sinais que confirmassem as acusações de falta de “amor fervoroso”. Ramalah deveria estar embutido nos frisos das paredes, desenhado nas canecas, posto em quadros em todas as divisões, esculpido na madeira das camas, e representado em estátuas no altar obrigatório de cada casa.
Foram anos tolos, de fanatismo religioso e severidade religiosa, anos a que quase se chamaram de século. Os deuses eram cada vez mais presentes na vida terrena, também, com as suas manifestações a brilharem, visíveis, em cada uma das luas, e parecia que quanto mais fossem o centro de todas as acções humanas, mais a sua presença se sentia. E sentia-se, ubiquamente, à maneira divina; incompreensível, aceitava-se, para os homens. E pouco ortodoxa. As execuções instantâneas e sumárias continuavam a ser levadas a cabo. E quando os actos criminosos mais óbvios terminaram, pelo respeito – pelo medo – que se instalava no coração do homem pagão de intenções, rejubilou-se nas ruas pelo fim do assassinato, do roubo, da coacção sexual. Mas só por meros momentos. Pois, com o término da prática desses actos, outros afloravam, já, à superfície do entendimento dos homens receosos, tidos para os deuses como novas afrontas. A burla, a ameaça, e as rixas tinham, por vezes, tristes finais. A cor desses finais era a vermelha, dos ossos e tecidos liquefeitos em borrões de sangue espalhados pela neve fresca, branca; pela areia quente do deserto e sob as bossas dos camelos, na consola de controlos de uma traineira no mar, navegando para os começos de um vento escuro; nos cubículos de escritórios onde os computadores ficavam manchados de sangue negro e seco nas suas pelas de plástico cinzento, realizando-se salgas rituais para purificar todo o andar e o edifício; em escolas onde as crianças se benziam e, com cada um dos braços, apontavam para cada uma das luas, olhos esticados para o céu, a cada morte que presenciavam. E histórias havia dos deuses visitarem eremitas, não os matando com um verbo de poder, mas rasgando-lhes as carnes e cruxificando-os em pilares de ar sólido. Ou conversando sobre horizontes inimagináveis, que os enchiam de terror. Os deuses continuaram a exercer a sua Justiça. E, após décadas de fanatismo religioso sem que nada de bom tivesse daí vindo – a não ser encontrarem-se ainda com vida – os homens começaram a desprezar os deuses.
Os homens questionaram Ramalah.
Os deuses há muitos que tinham passado os limites da compreensão humana para os seus actos caprichosos. A devoção era real e visível – os animais imolados nos altares, as oferendas de vida e de sal, sobretudo de sal, tornavam-se em fumo branco, desmaterializavam-se, desapareciam, iam para as luas. Mas não pareciam ter outro efeito que não o gozo pessoal do divino, e apenas horas, ou dias, de vida, aos seus fiéis seguidores lá em baixo, na terra, presos pelos limites da carne – os homens, que tinham abandonado a independência e a vontade de viajar pelas estrelas. Até os sacerdotes questionavam, nas suas mentes, o porquê de tamanha intolerância divina. E faziam-no com medo, não fossem os deuses escutar os seus pensamentos.
Os sacerdotes– representantes de Ramalah nesta Terra – reuniram-se, durante meses, para debaterem os reais propósitos dos deuses e o porquê destes actos que se assemelhavam a fúria divina. Imolaram animais e jejuaram no templo em forma de símbolo divino, e mais meses ou anos teriam ficado em retiro se uma manifestação de ordem mundial não tivesse, quase espontaneamente, nascido no seio dos homens. Que se assemelhou mais a uma peregrinação. Um dia, o homem cansou-se de questionar a vontade e a moralidade divinas, e decidiu perguntar-lhe: porquê. De toda a parte do mundo, aos milhões, os humanos caminharam até à mesma planície onde, pela primeira vez, os deuses Ramalah tinham descido à Terra. E como da primeira vez, quem não foi até essa vasta planície seguiu, pela televisão, este grito colectivo de compreensão, pedido de perdão, e temor divinos. E raiva, e fúria, por todos os que tinham sido injustificadamente mortos.
Este era o protesto respeitoso de uma espécie que se rebelava agora contra os deuses que escolhera amar. E, num grito a uma só voz, indistintamente ecoada milhões de vezes, os homens perguntaram Porquê, Ramalah, porquê? Acabai com tamanha ignomínia. Porquê as mortes, revoltados, perguntamos? Porquê esta ira divina perante vossos escolhidos filhos?
E durante 3 dias os homens oraram e gritaram, e perguntaram em revolta e pediram a Ramalah por um sinal, e ao terceiro dia, ao final da tarde, as luas brilharam. E todas as câmaras registaram o sinal dos deuses, que seria quiçá uma nova descida, e os deuses desceram, sim, à planície, e os homens rodearam-nos respeitosamente, de joelhos. O olhar posto no chão, a cabeça caída, e a esperança um espigão atravessando-os por todo o corpo.
E nos seus silêncios divinos, rodeados por milhões de homens, os deuses lançaram um círculo de morte que todos matou instantaneamente. E, enquanto as câmaras filmavam cadáveres sem fim, cadáveres contaminando para sempre aquela planície com o sangue dos seus corpos apodrecidos por essa onda de morte, os deuses esfumaram-se, novamente. A partir desse momento, o luar de ambas as luas passou a ter uma distinta aura de malignidade.
Nascera o terror divino. Criadores ou não dos homens, Ramalah não eram deuses.
Ramalah eram capatazes. Vampiros de almas e de força de vida, seres superiores cujo único propósito era o de escravizar toda a humanidade.
E os homens estavam à sua mercê.